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“Por que nos tempos escuros se escreve com tinta invisível?”, pergunta Neruda

LivroDasPerguntasPablo Neruda não apenas construiu versos de amor e de cunho político, como os deixados nos livros “Cem Sonetos de Amor” e “Canto Geral”, mas também fez de simples perguntas poesias, sem procurar respostas. Essas questões surgem em “O Livro das Perguntas” (CosacNaify, 2008), com tradução de Ferreira Gullar e ilustrações do espanhol Isidro Ferrer – em 2004, a L&PM publicou uma edição de bolso do livro.

Lançado postumamente, em 1974, a obra é considerada uma espécie de testamento poético, em que todos os elementos essenciais do universo do chileno estão presentes. É o encontro do menino com o poeta.

A Cosac direciona o livro para o público infantojuvenil, mas os 74 cantos (cada canto com um número de perguntas variável) podem ser lidos por um adulto com a mesma curiosidade de uma criança. Há questões sobre a natureza, o mar, vida e morte, amor, a existência, todas acompanhadas pelo trabalho de Ferrer, instalações e colagens que aparecem nas 87 ilustrações reproduzidas por meio de fotografias – o conjunto foi encomendado pela editora espanhola Media Vaca, em 2006.

No final do livro, crianças escrevem a biografia de Neruda, Ferrer e Gullar. O chileno é descrito assim por um menino de 9 anos: “Pablo Neruda era muito feio (…) Para não se entediar, deu para escrever poemas”. Já o livro é definido com sabedoria: “São tantas dúvidas que desconfio que não sejam para a gente responder. Acho mesmo que são para pensar”, diz a garota de 10 anos.

Entrevistei Ferrer na época do lançamento do livro no Brasil para uma reportagem para “O Tempo”. A seguir, alguns trechos da conversa.

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Ilustração de Ferrer para o livro

A preparação
“Conheço o livro há quatro anos e demorei três para fazer as ilustrações. Tive medo de não dar a conotação adequada, que a ilustração prejudicasse a leitura e interferisse na poesia. Não queria, ao mesmo tempo, trair as perguntas e representá-las literalmente.”

O resultado
“Fiz o livro que queria fazer. Foi uma aproximação, uma análise da obra de Neruda. Li todos os seus livros para entender os temas do poeta. As ilustrações criam um relato paralelo e costura o universo de Neruda. As ilustrações são para um público de qualquer idade, não fiz pensando na criança ou no adulto. Queria seguir o caminho de Neruda, que expôs sua ingenuidade ao não propor respostas às suas perguntas.”

“O Livro das Perguntas”
“É um dos livros mais interessantes de Neruda, que não está a serviço da resposta. Possui vários modos de leitura e provoca uma profunda reflexão.”

Crianças
“Trato as crianças com respeito, elas não são estúpidas e entendem o que está à sua frente. Não gosto do tratamento infantilizado que muita gente dá a elas.”

Inspiração
“Busquei inspiração na poesia visual, no surrealismo, em Duchamp e no universalismo construtivo. A metáfora da poesia pode sugerir uma imagem que, aplicada a um tratamento gráfico, transformasse em metáfora visual. Meu trabalho foi reconstruir as perguntas com novas metáforas para transformá-lo em um livro único, de múltiplas leituras.”

Angústia
“Foi um trabalho muito complicado, fiquei angustiado nos três anos que ele me consumiu, até encontrar o tom adequado. Todas as ilustrações são físicas, a parte artesanal é muito ‘dolorida’. Busquei criar conflito em um discurso leve, pois o percurso gera conflito que gera mais tensão.”

Pablo Neruda
“Neruda é acessível para o povo, possuía grande conhecimento de literatura. Era um poeta democrático. Meu livro preferido é “‘O Livro das Perguntas”’, pois ele condensa muitas coisas, compila muitos lugares comuns de toda a sua obra, como o político, o romântico, o sexual.”

isidro_ilustra02
Ilustração de Ferrer para o livro

As perguntas de Neruda

“Onde está o menino
que eu fui? Está dentro
de mim ou se foi?”

“Quem era aquela que te
amou no sonho, enquanto
dormias?”

“Sofre mais quem
espera sempre ou
quem nunca esperou
ninguém?”

“Mas por que a quinta-feira
não aceita vir depois da sexta?”

“Por que nos tempos escuros
se escreve com tinta invisível?”

“Talvez uma estrela
invisível seja o céu
dos suicidas?”

“Por que fechei meu caminho
caindo no seu engodo?”

“E o onde o espaço termina
se chama morte ou infinito?”

“Que mais pesam na cintura,
as dores ou as recordações?”

“Em que janela fiquei
olhando o tempo
sepultado?”

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