Áustria, Cinema/Roteiro, Comentário, Ficção

O beberrão de Joseph Roth

A chegada do videocassete ao Brasil ajudou a criar uma memória cinematográfica que permanece grudada em quem fuçava locadoras na época, meados dos anos 80. Títulos que nem passavam pelo cinema e que iam direto para as prateleiras eram devorados como ao descobrir um canal torrent com as temporadas completas de “The Wire” e “Wonder Years”.

Para ver cinema mais autoral, os caminhos eram poucos. Uma rara esperança de um filme ser lançado no circuito comercial ou em cineclubes – só assim pude assistir ao “Viagem do Capitão Tornado”, de Ettore Scola, numa sala medonha no Bixiga. Ou tirar férias no mês da Mostra Internacional de São Paulo. Ou torcer para ser lançado em VHS – e no início as distribuidoras eram mais maleáveis na escolha do catálogo.

Exemplo é a obra de Percy Adlon, especialmente seu “Bagdad Café” – um hit das locadoras na época.

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Rutger Hauer em cena de “A Lenda do Santo Beberrão”

Ou “A Lenda do Santo Beberrão”, do italiano Ermanno Olmi. A história do andarilho que recebe uma quantia vultuosa de um endinheirado enquanto passeia por Paris foi um marco na história do VHS brasileiro. É estrelado por Rutger Hauer, um herói daquele período – “O Feitiço de Áquila”, “Blade Runner”, “O Casal Osterman”.

Lenda-do-Santo-Beberrao_ALTAAgora, mais de 20 anos depois, fui ler o livro que inspirou o filme, escrito pelo austríaco Joseph Roth. “A Lenda do Santo Beberrão” (Estação Liberdade), recém-lançado, me fez voltar rapidamente à locadora que ficava perto de casa. A editora lançou também “Hotel Savoy”, que, com “A Marcha de Radetzky”, forma o eixo da obra ficcional de Roth.

De certa forma, essa nostalgia faz parte do livro de Roth. Andreas, seu andarilho, promete ao homem que lhe deu dinheiro devolver a quantia, mas recebe uma negativa. Ele então promete entregar a uma santa.

Vai passar o livro tentando cumprir sua promessa, enquanto viaja, come e conhece mulheres. Reencontra amigos e bebe. Sempre a rondá-lo está a promessa.

A Paris de Roth é a cidade entreguerras, cheia de pessoas sem destino, que vivem à margem do Sena com rumos incertos, como Andreas. Andreas que funciona como alterego de Roth, ele mesmo à época também com rumo incerto e muito mais afeito a um bar do que um endereço certo.

Seus destinos de alguma forma se cruzam ao final. “A Lenda do Santo Beberrão” foi finalizado às vésperas de sua morte, em 1939, e é considerado seu testamento .

Joseph Roth é o autor de “Berlim” (Companhia das Letras), uma clássica reportagem que foi publicada na coleção Jornalismo Literário – recomendo.

Sinapse

  • “Pergunte ao Pó” (Brasiliense), de John Fante

*****

“Pediu então uma bebida. Mas, prudente como era, e como o são todos os pobres deste mundo, mesmo depois de vivenciarem um milagre atrás do outro, ele primeiramente tratou de verificar se de fato tinha dinheiro, e tirou a carteira do bolso. Viu então que dos novecentos e oitenta francos quase nada mais restava.
Só havia duzentos e cinquenta. Ele refletiu e se deu conta de que a bela moça do hotel lhe tomara o dinheiro. Mas o nosso Andreas não deu a mínima importância a isso. Disse para si mesmo que deveria pagar por qualquer prazer, e ele desfrutara de um prazer, portanto tinha de pagar por ele.
Queria esperar ali até que os sinos soassem, os sinos da capela próxima, para então ir à missa e finalmente salgar a dívida com a santinha.”

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6 thoughts on “O beberrão de Joseph Roth”

  1. Roth também é conhecido por Jó, não? Segue o link do livro: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11832
    Mudando de assunto, mas dentro do tema cinema, lembrei hoje de um cineasta do qual gostava muito, Patrice Leconte, e do qual nunca mais vi nenhum filme. A mulher e o atirador de facas e O marido da cabeleireira são lindos. Este último eu vi numa daquelas madrugadas em que a Band passava filmes de arte. Preciso revê-lo. Lembro bem da cena final, triste de doer.

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    1. Sim, “Jó” é dele também, que pretendo ler em breve. Acho que só assisti ao Marido da Cabeleireira do Leconte, não me lembro de outro. E as madrugadas na TV aberta eram muito melhores do que agora. Lembro de assistir John Ford legendado na Globo.

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