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Uma mulher desnuda em palavras

A revista “Brasileiros” de janeiro publicou reportagem de capa sobre Hilda Hilst, a poeta que chegou ao fim com uma obra dedicada ao sexo, que sempre dizia que transou com quem quis – exceção feita a Marlon Brando, história que a matéria relembra em bons detalhes – e que vai ser homenageada em várias plataformas aos dez anos de sua morte.

A reportagem, de Gonçalo Júnior, rememora a história da escritora por meio de pessoas que viveram com ela, conheceram-na na intimidade e estudaram sua obra – é comovente a memória de um amigo, hoje já nos 80, que diz ter sido apaixonado por ela. A matéria ainda resgata ensaio fotográfico inédito de Hilda feito nos anos 50, por Fernando Lemos, que revelava uma beleza incômoda.

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A escritora em sessão de fotos em 1950 | Foto: Fernando Lemos

Nunca fui um leitor devoto a Hilda. Cheguei a comprar alguns títulos quando sua obra foi reeditada pela Globo, mas não cheguei a me entusiasmar – “Poemas Malditos, Gozosos e Devotos”, “Cantares” e “Fluxo-Floema” foram os que pousaram na biblioteca, mas não me conquistaram e seguiram adiante. Mas confesso: não sei se esses são os mais representativos da obra da poeta.

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Já suas entrevistas para mim sempre foram mais interessantes, suas posições e definições me cativaram mais do que os versos – além do seu sarcasmo e da sua verve. O livro “Fico Besta Quando Me Entendem” (Biblioteca Azul), coletânea de 20 entrevistas da escritora, é então algo indispensável para entender Hilda e sua obra.

As conversas, organizadas por Cristiano Diniz, abrangem o período de 1952 a 2003 – ela morreu aos 74 anos, em 2004. Há interlocutores como Léo Gilson Ribeiro, Caio Fernando Abreu, José Castello, Bruno Zeni e Marilene Felinto.

O título já é provocador o suficiente. E o que sai das páginas são pensamentos que avançam sobre a personalidade da autora, seu modo de encarar a vida e suas relações, o ato de escrever, filosofia, sexo, homens e religião.

Hilda não fugia das perguntas e suas respostas nem sempre foram fáceis, objetivas. Destaco duas perguntas abaixo.

*****

Qual seu pensamento sobre as situações-limite?
Tenho muito medo, tenho pânico das situações-limite. Acho que eu escrevo sobre elas para me exorcizar. A paixão, a morte, o perguntar-se. Tenho muito medo de mim também, por isso escrevo. Escrever é ir em direção a muitas vidas e muitas mortes.

A sua poética, de certo modo, sempre foi a do desejo?
Daquele suposto desejo que um dia eu vi e senti em algum lugar. Eu vi Deus em algum lugar. É isso o que eu quero dizer.

*****

A Globo vai reeditar suas obras neste ano. Virão filmes, biografia e minissérie. Talvez seja o momento de descobrir a poeta. A mulher está desnuda em suas entrevistas.

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2 thoughts on “Uma mulher desnuda em palavras”

  1. Um dia comprei O caderno rosa de Lori Lamby e não consegui passar da segunda página. Pedofilia me incomoda ao extremo, e era narrado pela menina, de uns 8 anos. Pesado demais. Está lá na estante, e acredito que nunca vou voltar a ele.

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