Comentário, Ficção, França

Carrère: uma experiência de leitura

Li Emmanuel Carrère pela primeira vez há quase dois anos. Seu “Outras Vidas que Não a Minha” (Alfaguara) foi das leituras mais potentes que tive nos últimos anos.

Tempos depois, li “O Adversário” (Record), um livro-reportagem sobre um francês que finge por 18 anos ser um médico da OMS, mata sua família e queima sua casa no vilarejo onde morava. O criminoso conversou com Carrère, que escreveu um livro que precisa ser (re)conhecido.

2014 começou com Carrère na cabeceira. Li três livros em seguida – deveriam ser dois, mas não me contive e li o terceiro.

tn_311_600_livro_2_21113O primeiro foi “Limonov” (Alfaguara), uma espécie de biografia romanceada de Eduard Limonov, herdeiro da Cortina de Ferro. Escritor, mordomo, mendigo, mercenário e político, Limonov teve uma vida sem lastro, vivia numa Rússia pré-Gorbatchev, vivenciou a queda do Muro de Berlim, a dissolução da União Soviética, a disputa das ex repúblicas, a guerra nas Bálcãs, sempre como membro ativo.

Carrère não só faz um romance da vida de Limonov, mas também intercala a narrativa com passagens de sua herança russa – a origem do escritor francês. Humaniza autor e personagem, o livro ganha uma força além da história de um porra-louca sobrevivente do comunismo, que experimenta sexo com homens nas ruas de Nova York para narrar em livros e se envolve na disputa entre sérvios, bósnios e croatas.

“Limonov”, o livro, torna-se então um romance político, com a revelação de camadas de Limonov, o personagens, que vão surpreendendo o leitor. De forma compulsiva, é preciso dizer.

alfaguara_capa romance f4A herança russa de Carrère me levou a “Um Romance Russo” (Alfaguara), narrativa autobiográfica do autor. Toda a discussão em torno da autorização de biografias no Brasil vira conversa de criança diante desse livro.

É o melhor livro de Carrère na opinião do blog, uma leitura que ainda perturba mais de duas semanas depois de finalizada.

São três histórias contadas em paralelo inicialmente e que se cruzam à medida que a narrativa avança: a relação com Sophie, um documentário feito num vilarejo russo, onde um húngaro viveu por mais de 60 anos sem falar, e a descoberta do passado de seu avô, colaborador dos alemães na 2ª Guerra Mundial.

São três histórias que provavelmente renderiam três livros, mas que Carrère consegue fundir em 247 páginas. O autor não se esconde. Estão lá o ciumento agressivo, o desconfiado que se engana constantemente, o passado nebuloso da família, neuroses e uma vila que não encara com gentileza a visita de uma equipe de filmagem.

A relação de Carrère e Sophie é das coisas mais angustiantes que já li, tal a verdade transposta para as palavras – ainda que seja uma verdade filtrada. Diálogos e situações que expõem o pior de cada pessoa, reforçando que todos temos uma área cinzenta e que maniqueísmos raramente funcionam na boa literatura.

O livro transpira originalidade e a entrega do autor, não só por revelar o passado obscuro da família, mas por não esconder o pior que cada um pode ter.

o-bigode-a-colonia-de-feriasEra para eu parar aqui, com a leitura desses dois livros, mas não consegui. Tomado pela angústia saída da relação de Carrère e Sophie, fui ler “O Bigode / A Colônia de Férias” (Alfaguara), duas novelas reunidas num só volume. Um choque psicológico foi o que revelou esta leitura.

“O Bigode” guarda um certo parentesco com “Metamorfose”. Um dia, um homem resolve raspar o bigode e aos poucos perde sua identidade. Sua vida cai numa espécie de buraco negro. Ninguém lembra de ele ter usado bigode antes, suas relações começam a degringolar e o narrador entra numa viagem vertiginosa que não parece ter fim.

A sensação que fica é que a relação desse homem com sua mulher antecipa o que aconteceria com Carrère e Sophie em “Um Romance Russo” – a novela foi escrita 20 anos antes.

“A Colônia de Férias” perturba pelo que não mostra. O garoto Nicolas vai viajar para sua turma, sempre à sombra das exigências do pai. Tímido, o menino fica sob a proteção de um garoto mais velho, até que um fato o faz encarar verdades cruéis sobre pessoas próximas.

A narrativa de Carrère é densa, fechada, como um filme de suspense psicológico – aliás, a espinha dorsal das duas novelas, dois retratos psicológicos que mostram muito mais do que revelam as palavras.

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© Christophe L.

Não me preocupei com a ordem cronológica ao escolher os livros. E fiz, dessa forma, o caminho inverso. “Limonov” é de 2011 (as datas correspondem ao lançamento no exterior), “Romance Russo”, de 2007, “O Bigode”, de 1986, e “A Colônia”, de 1995. O salto entre a primeira novela e os romances é preenchido por “O Adversário” (2000) e uma biografia ficcionalizada de Philip K. Dick (1993), ainda não traduzida, uma experiência de gêneros que vai afunilar seu estilo.

Carrère evolui no gênero não ficção, ao aprimorar o uso de técnicas literárias para escrever reportagens e biografias – o caminho inverso mostrou o quanto o francês já conseguiu uma maturação em “Um Romance Russo”, antecessor de “Outras Vidas” (2009).

Transforma-se assim num dos autores mais inventivos da atualidade, com textos que emocionalmente pregam no leitor e temas que se revelam universais, ainda que retratem uma vila escondida no interior da Rússia, o tsunami, um rebelde ucraniano ou maluco francês.

Carrère é um autor fundamental destes dias.

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