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Dos arquivos: Dois olhares sobre o amor

Um amigo está às voltas com a leitura de “Quem de Nós”, de Mario Benedetti, autor uruguaio que ocupa lugar de honra na biblioteca de casa.

Pensei no livro, tentando me lembrar da sua trama, e cai num texto que escrevi em 2007, para “O Tempo”. Nele, entrelaçava o livro de Benedetti com uma nova edição de “O Amante”, de Marguerite Duras.

Abaixo, o texto publicado.

*****

Em “Do Amor” (Martins Fontes), o escritor francês Stendhal assim relaciona o sentimento: “A qualquer gênero de amor que devamos os prazeres, uma vez que haja exaltação da alma, eles são fortes e sua lembrança arrebatadora”.

Stendhal escreveu um livro inteiro para tentar decifrar, investigar o amor. Esse ensaio possui descrições quase matemáticas do amor, criou fórmulas, visitou textos de Goethe e da história da sua França natal, motivado por uma paixão que não o correspondeu, Matilde Dembrowski.

Amor que foi tratado por Barthes, Aristóteles e Descartes.

Amor que é narrado em dois livros que acabam de chegar às prateleiras, dois olhares sobre o sentimento transmitidos de formas distintas.

mario_benedetti_01“Quem de Nós” é o primeiro romance do uruguaio Mario Benedetti, publicado originalmente em 1953 e que havia sido lançado no Brasil pela gaúcha Editora Mercado Aberto, no início dos anos 90. Agora, chega pela Record, com distribuição nacional e nova tradução, de Maria Alzira Brum Lemos.

A Cosac&Naify lança “O Amante”, da francesa Marguerite Duras, dentro da coleção Mulheres Modernistas. A edição da Nova Fronteira estava esgotada, e essa nova versão, com tradução de Denise Bottmann, capa dura e projeto gráfico característico, recupera um livro fundamental sobre as relações amorosas e, em certa parte, sobre a vida da autora. Como parte do conjunto que já lançou Karen Blixen, Virginia Woolf e Katherine Mansfield, esse segundo livro de Duras pela coleção tem posfácio analítico e indicação de leituras.

São dois livros curtos – ambos possuem 83 páginas de narração –, de prosa enxuta e densidade emocional. Cada um a seu modo, retratam o amor como a desvendar mais duas facetas desse sentimento.

“Quem de Nós” é a história do triângulo amoroso de Miguel, Alicia e Lucas, amigos de infância em Montevidéu. Benedetti divide seu livro em três partes. Na primeira, escrita em forma de diário, Miguel relata o fim de seu casamento com Alicia. Em seguida, Alicia escreve uma carta ao marido para comunicar a separação, com a carga de mágoa que todo texto desse tipo possui. E, por fim, Lucas escreve um conto baseado na sua experiência para narrar a história dos três até a chegada de Alicia a Buenos Aires, onde vive, para ficar com ele.

Benedetti é um prosador de escrita fácil, fluente. Ousou ao optar pela narrativa fragmentada, de múltiplas visões, e conseguiu um efeito poderoso. Ao apresentar os três pontos de vista dos envolvidos, o uruguaio define seus personagens no todo. Para entender Miguel, é preciso ler as três partes, assim funciona para Alicia e Lucas. Três partes de um todo que se divide quando o amor entra em campo.

Miguel é conformado. “Na verdade, só existe a direção que tomamos. O que poderia ter sido já não conta (…) Alicia tem a mim, que não sei nada a respeito de mim mesmo”, escreve em eu diário.

Alicia se mostra dividida, mas decidida: “Como eu discutia com Lucas, como me entusiasmava contradizendo-o (…) você e eu éramos semelhantes demais para estar em constante conflito, que eu gostava de discutir com Lucas, mas que gostava muito mais da singela paz de nossas conversas”.

Lucas é reflexivo, como numa das notas de pé de página do seu conto: “E não querer lhe fazer mal é a interpretação menos arriscada do amor. Também é fato que tudo teria corrido melhor se naquele tempo Alicia e eu nos tivéssemos visto, se Miguel não tivesse tomado a única decisão de sua vida. Mas quem de nós julga quem?”.


De estilo narrativo fragmentado também se faz “O Amante”. Romance com fortes ingredientes autobiográficos, a obra de Duras é um passeio pela sua vida, da infância no Vietnã à velhice na França.

A história da garota de 15 anos e meio que se entrega a um chinês rico é dividida com memórias da narradora idosa, dos tempos de criança, da sua família e dos contratempos vividos no país asiático.

A prosa de Duras é introspectiva, ao mesmo tempo em que escancara sua vida. É sensual ao descrever o sexo entre a garota e o chinês, como uma libertação feminina na época em que se passa o romance. Busca sensibilidades descritivas próprias da mulher, seja na relação amorosa – “Voltamos à garçonnière. Somos amantes. Não podemos parar de amar” –, seja na relação materna – “Em minha infância, a infelicidade de minha mãe ocupou o lugar do sonho” –, ou seja sobre a vida – “Muito cedo foi tarde demais em minha vida (…) A história da minha vida não existe. Ela não existe. Nunca há um centro. Nem caminho, nem trilha. Há vastos lugares em que é de se crer que houvesse alguém, não é possível que não houvesse ninguém”.

Como escreve Leyla Perrone-Moisés no posfácio, “ler ‘O Amante’ é como folhear um álbum de fotografias”. Escrito quando Duras tinha 70 anos, mistura passado e presente em uma estrutura que envolve o leitor a cada alternância. Ela fala não apenas do amor ao homem, mas à pessoa. De como esse sentimento nos forma e nos deixa marcas.

Dessas marcas, Stendhal encerra questão no prefácio de seu “Do Amor”: “Este livro tem a infelicidade de só poder ser compreendido por pessoas que encontram tempo para fazer loucuras. Muitas pessoas irão considerar-se ofendidas, e espero que fiquem nisso”.

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4 thoughts on “Dos arquivos: Dois olhares sobre o amor”

  1. Tem outro amigo seu lendo Benedetti também. E o Amante é um livro lindo. Não esqueço o trecho final, quando o chinês liga para a menina, agora uma velhinha ou quase isso, e se declara, como as décadas fossem dias. A adaptação para o cinema é muito boa também.

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