Colaboração, Reportagem

Da rede para o papel

O recesso era para ser de duas semanas, mas transformou-se em três. Agora é hora de voltar.

Aos poucos, para estabelecer novamente a rotina.

Para começar 2014, o blog publica uma reportagem escrita por Lygia Calil, do jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, sobre conteúdo postado na internet que migra para o livro físico: tuítes, vídeos, fotos, tudo transformado para o impresso.

A reportagem está disponível neste link.

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Por Lygia Calil

Em tempos cada vez mais digitais, chegou-se a anunciar a morte do livro impresso com o advento do e-book. O mercado editorial, porém, vem dando sinais de que esse pode não ser o futuro do segmento. Contrariando a tese de que os pixels substituirão o papel, lançamentos fazem o caminho inverso: nascem no mundo virtual e tomam as páginas e prateleiras das livrarias.

Não é de hoje que editoras lançam mão do conteúdo de blogs e incluem em seus catálogos títulos de blogueiros famosos. A novidade é a chegada desse mercado às redes sociais. As sacadas de Rita Lee no Twitter, por exemplo, deram origem a “Storynhas” (Companhia das Letras), com ilustrações de Laerte. Já a Sextante investiu na publicação dos roteiros originais dos vídeos da Porta dos Fundos no YouTube. Destaque da safra de artistas que se mostram no Instagram e Facebook, Pedro Gabriel lança pela Intrínseca seu primeiro título, “Eu Me Chamo Antônio”. Em clima de experiência, a editora Ímã projetou “Rio365”, com parte do conteúdo criado coletivamente, no Instagram.

A discussão invariavelmente cai no porquê de se levar conteúdo gestados nessas mídias, inclusive na linguagem própria de cada canal, para o analógico. Seria uma estratégia mercadológica das editoras? Ou talvez uma procura de chancela de qualidade?

Especialista no assunto, editor e fundador do maior site sobre o mercado editorial no Brasil, o PublishNews, Carlo Carrenha se arrisca a responder que, sim, na maioria dos casos se trata de puro business: “Esse novos autores já vêm com público pronto, em plataformas em que existem métricas bem definidas. Se eles têm milhares de seguidores, ávidos por consumir, naturalmente é um bom negócio”, diz.

Egresso das redes sociais, o publicitário Pedro Gabriel é o autor por trás da página do Facebook, Tumblr e Instagram Eu Me Chamo Antônio e assina seu primeiro livro, com título homônimo. Com base nessa experiência, ele discorda da visão puramente comercial dos lançamentos que vêm do digital. “Não é garantia de que meus seguidores vão querer ter um livro impresso, assim como já recebi feedback de quem não me conhecia na internet, comprou e gostou do livro. Me sinto valorizado tendo um livro publicado porque é uma aposta da editora que pode não dar certo”, afirma ele.

Produtivo nas redes, Pedro conseguiu criar uma identidade visual marcante, que arrebatava, até o final de dezembro de 2013, 435 mil seguidores no Facebook, mais 105 mil no Instagram. Os posts publicados em seus perfis são frases e desenhos rabiscados em guardanapos de papel, quase sempre no mesmo bar carioca, o tradicional Café Lamas. Nas páginas do livro, ele aproveita o mesmo formato. “É curioso porque o material surgiu em um meio físico (o guardanapo), foi levado para a internet e, agora, volta para o impresso. Nunca imaginei que isso fosse acontecer”, diz.

Como afirma a pesquisadora em novas estratégias para a mídia digital do pós-doutorado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cristiane Costa, o desafio de iniciativas como essas mora na transição entre o virtual e o físico, universos tão distintos quanto complementares.

“É importante observar como essas narrativas vão se comportar no papel. Não adianta pegar o mesmo conteúdo e tentar replicar em várias plataformas. O processo não é de recortar e colar, mas sim de criar outro caminho, em uma narrativa híbrida. Alguns vão ser bem-sucedidos, outros, não, porque as linguagens não são as mesmas. Transferir um material multimídia para o impresso é como fazer um filme de um game, outros elementos têm que aparecer para costurar essa história”, afirma ela, que faz parte do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ.

Na avaliação do editor e pesquisador da editora Ímã, Julio Silveira, buscar o caminho da transição é fundamental para evitar a redundância do conteúdo em diferentes fontes. “Não faz sentido pegar alguma coisa que já está na internet, que funciona bem em sua, plataforma e jogar nas páginas impressas. O livro assim se torna uma versão paga, reduzida e limitada do que está de graça para todo mundo acessar. Buscar a relevância é trazer algo de especial para as páginas”, diz.

Em “Rio365”, o editor convidou autores e profissionais como fotógrafos e designers para escrever textos inéditos que acompanham as fotos de centenas de usuários do Instagram. O livro é o resultado de uma experiência com uma comunidade virtual de mais de 6.000 pessoas, que fotografaram a cidade do Rio de Janeiro seguindo temas semanais na internet. De material bruto para a publicação, Silveira tinha mais de 100 mil cliques para escolher. Os créditos do livro contam com mais de 400 nomes. “Foi uma experiência gratificante, por ter envolvido tanta gente. Pelo Instagram, conseguimos mobilizá-las, e elas participaram efetivamente do processo de edição, discutindo e comentando cada tópico”, afirma ele.

Para Pedro Gabriel, a relevância do seu livro está nos 90% de material ainda inédito. Quando a editora fez o convite para publicar, em fevereiro de 2013, ele já contava com um “estoque” com mais de 700 guardanapos prontos, e a produção continuou ao ritmo de pelo menos um por dia e cerca de cinco por fim de semana. “Vejo a publicação como uma coisa muito positiva porque sinto que ainda existe um certo preconceito com o que nasce na internet. Eu mesmo não leio livros digitais, gosto do físico, que se pode cheirar, rabiscar, ter na cabeceira. Ninguém presenteia outra pessoa com um link, mas um livro é sempre encantador”, afirma o escritor.

Ilustração de Laerte para o livro de Rita Lee
Ilustração de Laerte para o livro de Rita Lee

Já a estratégia da editora Companhia das Letras foi trazer o cartunista Laerte para ilustrar as histórias narradas por Rita Lee (ou seu alter ego, Lita Ree) que faziam sucesso entre seus 670 mil seguidores. Na versão impressa, as histórias foram publicadas com apenas duas diferenças em relação ao Twitter: ganharam títulos e perderam a expressão “the end”. Até a ortografia no livro segue a original. Ela explica no prefácio: “ Sou meditante, adepta de acêntos, hí-fens e trëmas. A nova ortografia ñ me representa. Qdo a ditadura é um fato, a resistência é um dever”, escreve.

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‘Self service digital’ é tendência para livros na rede

Há cinco séculos, quando a imprensa foi inventada, os primeiros livros produzidos seguiam a lógica dos antigos manuscritos. Os incunábulos, como eram chamados, simulavam a letra humana porque os poucos leitores da época estavam acostumados ao formato feito a mão. A transição entre a letra cursiva e a de forma nos livros impressos durou cerca de 50 anos, até meados de 1500. Hoje, para o fundador da editora Ímã, Julio Silveira, estamos a poucos passos de ver outra revolução acontecer na forma de consumir os livros. A fase atual, de transição entre o impresso e o digital, ele chama de e-incunábulo.

Com passagem por editoras como Casa da Palavra, Ediouro e Nova Fronteira, Silveira abandonou o antigo mercado e, interessado em pesquisar a vanguarda e as tendências do digital, fundou a Ímã, que ele considera um laboratório. “Meu papel é ficar atento, refletindo e estudando o que afeta o comportamento de editoras, leitores, autores e livrarias. Fico tentando descobrir tendências e como transformá-las em negócio. Muitas vezes não são negócios, são coisas, porque muitas ainda não têm viabilidade comercial”, diz.

Foto de @gbuzak selecionada para o livro "Rio365"
Foto de @gbuzak selecionada para o livro “Rio365”

Foi por meio dessas reflexões que nasceram iniciativas como o “Rio365”, que acaba de ganhar um tipo de sequência no Instagram, no projeto “Rio450”. “A gente está convocando as pessoas para contar a história do Rio de Janeiro, que vai completar 450 anos em 2015, por meio de fotografias. No Instagram, vamos provocando as pessoas, oferecendo desafios como a invasão francesa, o ciclo do ouro, a influência indígena. E, além de enviarem as imagens, elas discutem, dão opinião, participam e pensam o livro junto”, afirma ele.

Assim como em tantos outros mercados, o norte da vanguarda editorial digital está apontado para o crowdsourcing e o crowdfunding. O primeiro se dá pela criação e edição coletiva de livros digitais e o segundo, pelo financiamento deles. Segundo Silveira, já é tecnicamente possível criar livros sob demanda, em que os textos e os recursos podem ser personalizados a critério do leitor. Ou ter, por exemplo, elementos como a geolocalização, que poderá indicar conteúdos afins com o que existe no entorno de quem lê no tablet ou celular.

“É uma lógica que foge à imutabilidade do impresso porque o livro digital pode ser moldado, receber novas versões e atualizações. E também não precisa ser igual para todos os leitores. Estabelecendo o crowdsourcing editorial, as pessoas podem dar opiniões sobre os personagens, discutir a narrativa junto do autor. Claro que essa é mais difícil, porque existe uma barreira cultural no Brasil, como se escritores fossem inalcançáveis. São várias e fascinantes possibilidades. Algumas vão vingar, outras vão ficar só como novidade”.

No portal Publishnews, do qual é colunista, Silveira instiga o leitor à reflexão sobre os rumos do mercado, frente aos novos leitores de uma geração nativa digital e da nova forma de pensar o livro. Em um dos seus artigos, intitulado “Conseguirão os ‘dementes digitais’ ler nossos livros?”, ele provoca as editoras: “Sócrates teve medo quando os jovens passaram a escrever; o autor do Eclesiastes alertou para a loucura dos livros sem fim; a imprensa foi tratada como a prostituta do saber; Jerônimo Squarciafico (impressor do século 15) já dizia que a abundância de livros torna o homem menos estudioso; a primeira geração televisiva foi taxada de alienada. O fato, contabilizável e incontestável, é que nunca se leu e se escreveu tanto. Mesmo que confinada em 140 caracteres, os nativos digitais formam a geração mais letrada — e mesmo literária — desde a Revolução Industrial”.

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