Crônica

O oftalmologista que lê

O oftalmologista estava atrasado. E eu, no horário. Só que ele ainda não havia começado o turno, nem no consultório chegara, e duas pessoas estavam na minha frente. Bem, pensei, vai bater na média de uma hora de atraso.

Então a secretária me chama e pergunta se eu não me importava de ser atendido por outro médico. Estava lá por indicação de uma amiga de minha mulher, um consultório tradicional de oftalmologistas, familiar, negócio de décadas.

Como era minha primeira consulta, não me importei. Imaginei que a qualidade pouco oscilaria.

Levantei-me e segui a moça em direção ao consultório. Quando entro, me assusto. Um pé direito altíssimo me recebe. A sala era comprida, retangular, à meia luz. No fundo, um senhor já idoso sentado à mesa me saúda.

Caminho até ele, que brinca com a origem italiana do meu sobrenome. Digo que não sei falar a língua, e ele desfia palavras e expressões em italiano. Reconheço algumas delas e nos sentamos.

Descubro que eu estava sendo atendido pelo oftalmo pai. Ele então começa a descrever sua carreira. Fala sete línguas fluentemente. Já deu cursos, fez palestras e seminários em toda a parte do mundo. Sua família fundou laboratórios especializados em olhos em Belo Horizonte. Me mostrou um armário onde repousam mais de 300 mil fichas de pacientes. Nas paredes, dezenas de diplomas, concedidos no Brasil e na Europa. Na faculdade, teve aulas com seu pai. Hoje, ele dá aulas para alunos de pós-graduação.

De origem belga, tem 91 anos. Fora alguma dificuldade para se locomover, nada denunciava a idade avançada.

A consulta já passava dos 20 minutos e ainda não tinha começado. Conversávamos. Interessou-se pela minha carreira e minhas andanças pelo Brasil nos últimos quatro anos. Contou casos que presenciou em suas viagens profissionais para a Europa.

Até que ele pega o relatório da pré-consulta, casualmente.

O diagnóstico vem na hora, ao ler as primeiras medidas. Fala sobre os problemas recorrentes à profissão. Faz perguntas e explica detalhadamente o que é preciso fazer e não fazer.

Durante a conversa, noto que em sua mesa nada há de tecnologia. Computadores, tablets, celular, nada disso. Um telefone repousa numa mesinha ao lado. Na mesa principal, blocos de papel, canetas, revistas especializadas e livros. E um sino.

Na hora de fazer o teste de visão, sento numa cadeira que se parece, à primeira vista, com a tradicional cadeira de exames de oftalmos. Olho para frente e pela primeira vez percebo que não há aquele painel com as letras. Apenas um suporte com uma tela branca redonda, bem no meio da sala. Ele então liga um projetor, e na tela surgem as sequências de letras.

Espero pela máscara de lentes, aquela que o médico gira até acertar o grau. Em vão. De repente, ele me coloca uma armação sem lentes. E abre uma maleta com dezenas delas. O teste é manual. Alguma relíquia dos anos 50. Preciso, ele coloca exatamente as lentes que me fazem enxergar as letras.

Como eu expressava certa desconfiança por tal método, ele trocou as lentes e colocou os graus que uso hoje. Depois, graus acima. Nos dois casos, a leitura piorou. Em tudo, ele acertou de primeira. Sem mistério e sem enrolação de ficar rodando lentes, o que, na verdade, só faz confusão.

O relógio já contava quase uma hora de consulta.

Voltamos à mesa.

Ele justifica toda a conversa e diz que só assim é possível entender o paciente e seus problemas. Mais do que respeito, o que eu enxergava naquele consultório era uma boa conversa com alguém que tem muita história para contar.

Para explicar o porquê de um míope ter óculos extras, ele conta o caso de uma consulta relâmpago que teve que fazer em Viena. Já a minha consulta, percebi, se assemelhava a uma leitura de um livro de viagens.

Ele escreve as receitas e me indica uma ótica. Pega um sino e balança. É a sua forma de chamar a secretária. O médico pede para ela chamar um táxi que me levaria à ótica ou para casa – na conversa, contei que chegara ao consultório de táxi.

Exatamente 1h15 minutos depois, saio do consultório.

Mais do que uma volta ao passado proporcionada pelos métodos da consulta, tive a impressão de ter passado um tempo numa conversa com alguém que encontramos na viagem por acaso e trocamos palavras. E que por acaso consertou o grau dos meus óculos.

Além disso, pela primeira vez em minha vida de paciente – ou pelo menos até onde minha memória alcança -, eu vi num consultório um livro que não seja especializado.

Na mesa do oftalmo, descansava, com cara de quem acabara de ser fechado, “A Guerra do Fim do Mundo” (Alfaguara), de Mario Vargas Llosa.

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8 thoughts on “O oftalmologista que lê”

  1. Bela narrativa Ricardo…. Consegui me ver no seu lugar, diante do médico, em uma sala retangular…. Muito bom mesmo!

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  2. Que lindo filho, adorei o seu relato, preciso, envolvente e sensível.Até eu gostaria de ser examinada por esse oftalmo.Você é demais.Bjs

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  3. Ainda não sei o motivo de vc não ter escrito,ainda,um livro de contos, ou se já o fez onde é que ele está? Adorei a narrativa e acima de tudo a sensibilidade

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