Da biblioteca de casa, França

Da biblioteca de casa: “A Náusea”

“Não tive aventuras. Aconteceram-me histórias, fatos, incidentes, tudo o que quiser. Mas não aventuras. Não é uma questão de palavras; começo a entender. Há algo que eu prezava mais do que todo o resto, sem perceber muito bem. Não era o amor, Deus meu, nem a glória, nem a riqueza. Era… Enfim eu imaginara que em determinados momentos minha vida podia assumir uma qualidade rara e preciosa. Não eram necessárias circunstâncias extraordinárias: tudo o que eu pedia era um pouco do rigor. Minha vida atual nada tem de muito brilhante: mas de quando em quando, por exemplo quando tocavam música nos cafés, eu evocava o passado e me dizia: em outras épocas, em Londres, em Meknés, em Tóquio, vivi momentos admiráveis, tive aventuras. É isso que me tiram agora. Acabo de descobrir bruscamente, sem razão aparente, que menti a mim mesmo durante dez anos. As aventuras estão nos livros. E, naturalmente, tudo o que se conta nos livros pode acontecer realmente, mas não da mesma maneira. Era essa forma de acontecer que era tão importante para mim, que eu prezava tanto.”

(“A Náusea”, Jean-Paul Sartre)

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2 thoughts on “Da biblioteca de casa: “A Náusea””

  1. Adoro a figura de Sartre, por mais extemporânea que ela possa parecer. A idade da razão me motivou a escrever um livro com seus personagens, que ainda vou terminar um dia,Mathieu De la Rue é um dos grandes personagens da literatura mundial. E As Palavras tem momentos magníficos. A Náusea está aqui guardado, esperando a sua hora.

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