Brasil, Comentário, Ficção

O leitor como testemunha da loucura

O-Mendigo-Que-Sabia-de-Cor-Os-Adagios-de-Erasmo-de-Rotterdam_2012-07-03_10-17-04_1A lista dos vencedores do Prêmio Jabuti de 2013 me atiçou a ler “O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Eramos de Rotterdam” (Record”, de Evandro Affonso Ferreira. O título venceu como melhor ficção e, segundo a crítica, foi capaz de bater “Barba Ensopada de Sangue”, de Daniel Galera – algumas publicações fizeram questão de ressaltar esse feito no título, com construções como “Livro de Daniel Galera perde o Jabuti de ficção”.

Só o fato de o vencedor ter deixado para trás o livro do Galera já me motivaria a ler. Afinal, desconheço escritor da nova geração tão incensado pela crítica. Queridinho, recebe espaço e atenção até ser capaz de ofuscar o vencedor, indo ao topo da notícia como se fosse ele o vencedor.

Acho Galera um escritor mediano, muito abaixo de gente como Michel Laub e Ricardo Lísias, para citar somente dois. E também muito abaixo de Evandro Affonso Ferreira, o qual fui ler pela primeira vez após o anúncio do Jabuti.

A prosa de Evandro é sofisticada, cheia de sutilezas, obriga o leitor a despender o máximo para seguir em frente. Ao mesmo tempo, a leitura de seu livro é fluente, confiante.

“Os Mendigos” começa com um bilhete de despedida da mulher, conhecida apenas como N, para um homem, que desde então vagueia pelas ruas com os “Adágios” de Erasmo. Um bilhete curto, que vai acompanhar o homem em sua jornada como um martírio: “Acabo-se; Adeus”.

O andarilho caminha por São Paulo em busca de coincidências que possa aplicar ao texto de Erasmo e à sua vida. Cita o holandês de cor, mantém um diálogo ininterrupto com um interlocutor que não se pronuncia, um escritor, como se conversasse com seu criador/leitor. Obsessivo, carrega sua esperança na volta da amada como um guia de sobrevivência.

Estilista, Evandro elimina vírgulas, faz seu texto ser escorregadio – “Antes que o tempo o vento a tempestade os apaguem de vez”. Elimina artigos. O texto então ganha ares de indeterminado. Usa frases curtas quando o homem escapa para o diálogo, como se falasse sozinho e tentasse se convencer. Lança mão de neologismos para ambientar seu homem desencontrado da vida.

Evandro nos faz testemunhas da loucura, da solidão e do amor de um homem, um criador de um mundo próprio, com personagens e vida deslocadas das dimensões.

*****

“Lembro-me ainda hoje – dez anos depois – daquele bilhete elíptico; não era longo feito sabre. Tinha a concisão do punhal: ACABOU-SE; ADEUS.”

“Só a morte alivia. Fui precipitado incluindo-me nesta lista: meu alívio virá com a chegada de minha amada. Não posso prescindir do aparecimento dela; do meu desaparecimento, sim. Não acredito na possibilidade do adeus para sempre. Se acontecer, depois de morto minha alma zepelim possivelmente ficará pairando, persecutória, sobre esta metrópole apressurada. Sobrevoo da sobrevivência da obstinação. Mas sei sinto pressinto que vou encontrá-la.”

“Maltrapilhos alcoólatras ainda têm a perspectiva do delirium tremens. Sou vítima da esperança obsessiva. Seu distanciamento amplia meu desvario. Doidice lenta gradual que se arrasta embalada pela trilha sonora cujo refrão é ela virá eu sei. Loucura branda que apenas impede a chegada do abstraimento.”

“Virá; sei sinto pressinto. Ouça: é a voz dela cantando My Funny Valentine. Pelo olhar de espanto o senhor não ouviu. Entendo: só ouvimos o que queremos. Não fico um dia sem ouvi-la dizendo-me cinco ou seis ou dez vezes: Oi, meu amado, voltei.”

“Vendo o senhor assim silencioso tempo quase todo chamo à memória mais uma vez amada imortal: dizia que silêncio é sombra da palavra.”

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