Comentário, Crônicas, Gastronomia, Inglaterra

Um inglês ao forno

6700271G1Alguns livros só poderiam ter sido escritos por ingleses. Como “O Pedante na Cozinha” (Rocco), de Julian Barnes. Com um humor fino, elegante, sarcástico – os adjetivos deveriam ser eliminados como receita enxuta, mas o exagero, neste caso, se fez de desentendido -, os relatos tentam dar conta da descoberta do escritor por uma receita, pela gastronomia e o ato de dominar a cozinha.

Os risos são econômicos, porque o humor inglês é ácido demais para a gargalhada. Em 17 textos, Barnes vai encarar o ato de cozinhar e receber como um chef, mas na verdade o autor não passa de um aprendiz, quando muito – e o Pedante assume o posto, sem vergonha ou receio. Vai a restaurantes e observa todo o ritual que envolve comer fora.

Em alguns momentos, no trato na cozinha, lembra Bill Bryson e o seu “Crônicas de um País Bem Grande” (Companhia das Letras), este sim um livro para rir desavergonhadamente.

Os relatos de Barnes se avizinham do gênero crônica, mas ganham corpo de testemunho, tal o tom de ironia impresso no texto. O Pedante, que cozinha para Ela, finca sua bandeira e demarca o território.

Poucos livros de gastronomia se permitem rir da função. Este “O Pedante na Cozinha” não só faz uma auto-análise como entrega um pouco de leveza para o leitor que pretende se aventurar pelas panelas.

*****

“Deviam cortar a língua dos artistas”, disse Matisse certa vez, e o mesmo – embora mais metaforicamente – se aplica a muitos cozinheiros. Cada um devia ser acorrentado ao seu fogão e só ter permissão de passar comida por uma janelinha quando pedíssemos.”

“Existem três tipos de convidados que podem invadir o nosso lar:
1. Aqueles de quem gostamos
2. Aqueles que somos obrigados a receber
3. Aqueles que detestamos

Para essas ocasiões graduadas, “deve-se preparar, respectivamente, um excelente jantar, uma refeição trivial, ou absolutamente nada, pois neste caso compra-se algo pronto”. Esta é a diferenciação mais útil. Talvez pareça sovina e moralista calcular com antecipação o quanto gostamos dos convidados; mas existe algo mais desanimador que preparar uma refeição para um chato mal-agradecido?”

“Eu estava ao telefone encomendando carne de veado a um abatedouro de carne orgânica. Por nunca ter comprado deles antes, perguntei o que mais vendiam. A voz feminina recitou uma lista que terminou com ‘esquilo’. Isso despertou certo interesse. Desde aquele ano em que esses pequenos encrenqueiros comeram todos os botões de camélia do jardim, venho procurando algum meio prático de me vingar. Essa prega me pareceu baratíssima (como devia ser), e me aconselharam a adotar o cozimento longo e lento. Então me perguntaram se eu queria que cortassem em pedaços.
– Qual a vantagem? – perguntei.
– Bem – foi a resposta -, se o senhor não mandar cortar em pedaços, vai ficar com muita aparência de esquilo.

Mandei cortar.”

*****

Mais Julian Barnes no blog:
1. Um inglês perdido nas prateleiras
2. Biblioteca Essencial: Dois romances em busca do equilíbrio

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