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Dos arquivos: O Clube do Bangue Bangue

8535903364O Clube do Bangue Bangue foi uma espécie de “panelinha” criada pelos fotógrafos Greg Marinovich, João Silva, Kevin Carter e Ken Oosterbroek, quando eram correspondentes na África do Sul, no período de transição do apartheid para a democracia. Para relatar a história dessa época, Marinovich, em comum acordo com o outro sobrevivente do quarteto, João Silva, escreveu “O Clube do Bangue Bangue – Instantâneos de uma Guerra Oculta” (Companhia das Letras).

Conhecedores dos meandros que ditavam as relações entre as facções do apartheid – governo racista, polícia corrupta, etnias em choque, adeptas do regime e confrontadoras, como o CNA, partido de Nelson Mandela –, circularam pelo campo de batalha na tentativa da eterna busca da “melhor foto”. Viveram todo o período de transição, uma época brutal, de guerra civil, com tiroteios diurnos e em vilas, com civis e militares em confronto nas ruas, sob fogo cruzado. E tiveram medo, muito medo. Em nenhum momento o livro esconde o fato de eles estarem superando tal horror muito mais pelo medo do que pela idéia egocêntrica de conquistar uma foto.

Marinovich, vencedor do Prêmio Pulitzer pela foto de um homem em chamas durante um confronto em Soweto, preferiu narrar os dramas e debates internos dos profissionais que cobriam a guerra civil, entrecortando situações pessoais e informações suficientes para compreender o contexto da época.

A foto de Greg Marinovich
A foto de Greg Marinovich

Esse é o grande mérito do livro. Aqui, não há espaço para estratégias e política quando se está com uma arma apontada para sua cabeça pelo simples motivo de você estar segurando uma câmara fotográfica.

Marinovich não reserva espaço para heróis. Narra com crueza as situações de batalha, quando os jornalistas estão à mercê da boa sorte. Não esconde as invejas que uns sentiam dos amigos que conseguiam a “melhor foto” e daqueles que ganharam prêmios – além de Marinovich, Carter também venceu o Pulitzer, com a foto de uma criança sudanesa agachada em um campo e com um abutre à espreita atrás dela, registrada em um dos três cadernos de imagens que acompanham o livro.

Não promove análises e nem cita remorsos, o que seria um recurso muito simples. Ele cutuca a ferida aberta, sem compaixão, sem pedir desculpas. E não há como a leitura ficar distanciada. O envolvimento acontece naturalmente pela sensação de absoluta sinceridade e pureza nos relatos.

A grande história de “Clube do Bangue Bangue” é a discussão sobre até que ponto um jornalista pode (ou deve) interferir na notícia. Dois fatos se destacam entre as 318 páginas. Num dos combates de rua, Oosterbroek é atingido por um tiro e logo é socorrido por outro jornalista. João Silva, que estava cobrindo o mesmo local, começa a fotografar o amigo ser retirado da cena, carregado nos braços, e levado para um hospital. Horas depois, Oosterbroek morreu. Sua mulher tem o instinto de culpar João pela morte, por não ajudar no socorro e continuar a fotografar. João também se culpa. E começa a procurar respostas para sua atitude (“Ele já estava sendo socorrido”, “Eu não poderia ter interferido”, “Não adiantaria nada minha ajuda”).

O Clube se descobre vulnerável e permeável aos mais diversos sentimentos. O livro revela que João nunca se perdoou pela morte do amigo – a mulher de Oosterbroek, sim, no dia do enterro.

O outro fato é a conseqüência da foto de Carter, vencedora do Pulitzer. O jornalista nunca suportou a pressão por ter registrado aquele momento. Sucumbiu a perguntas como “O que você fez pela criança?”, “A criança morreu?”, enveredou-se pelas drogas e por trabalhos frustrantes até cometer suicídio, anos depois, sozinho e sem resposta.

A foto de Kevin Carter
A foto de Kevin Carter

Carter disse que, depois de fazer a foto, espantou o abutre e deixou o local. Sentou embaixo de uma árvore, começou a chorar e a pensar no seu filho. Pelos relatos obtidos por Marinovich, a criança pode ter sido salva pela mãe, pois a cena ficava próxima a um posto de saúde e, no dia do registro, refugiados estavam se dirigindo ao local. Essa atitude, a da mãe, era comum, deixar a criança para pegar comida e retornar para pegá-la.

Carter nunca soube e não resistiu.

Esses dois fatos resumem o dilema que todo jornalista, onde quer que esteja trabalhando, enfrenta. E a resposta nunca é fácil – às vezes, ela não aparece ou nem existe. Por tais dramas, toda a teoria se dissolve em segundos. Marinovich não oferece nenhuma resposta, tampouco sugestiona conselhos. O que ele mostra é a resposta que cada um deles conseguiu encontrar em cada momento. Assimilável para uns, insuportável para outros. Mas nunca fácil.

Esqueçamos as teorias sobre ética jornalística, todos esses debates intermináveis nas academias, nos sindicatos, entre estudantes radicais e suas apostilas fotocopiadas e professores engajados com seu idealismo provinciano, programas de TV que ficam meramente a debater quem é e quem não é jornalista. Tudo isso se transforma em simples “masturbação intelectual”, como diria Sérgio Motta, diante do suicídio de um fotógrafo anos depois de contar uma história.

* Texto escrito para o jornal “O Tempo” em abril de 2003

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