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Terra devastada: a potência de Carrère

tn_600_580_outras_vidas_que_nao_a_minha_26092010Não me lembro como cheguei a Emmanuel Carrère e ao seu “Outras Vidas que Não a Minha”. Mas lembro exatamente do dia e da livraria onde comprei meu exemplar. Num sábado à tarde, no dia do primeiro show do U2 no Brasil, em abril de 2011, entrei na Fnac do shopping Morumbi, que fica em frente ao hotel onde estava hospedado. Já havia passado pela Cultura, no shopping vizinho, mas não encontrara.

Na Fnac, achei o livro, única cópia. Ficara entusiasmado com o que lera sobre o escritor francês, que utiliza fatos reais para escrever romances. Não é uma reportagem nem o que Capote chamava de não ficção. É algo novo, diferente, que busca mais do que inspiração na vida real.

Demorei uns meses até abri-lo. Mas depois de começar a leitura se tornou compulsiva.

Começa com um casal no Sri Lanka, na véspera do tsunami de 2004, onde passava férias. Carrère assume a posição de narrador, como o marido desse primeiro casal, para contar como a onda gigante mudou a vida de pessoas que estavam próximas a eles. Um casal de amigos perde a filha, há o terror de encontrar o corpo, em meio à destruição e a situações idênticas vividas por outros.

O início é arrebatador, de uma potência raramente encontrada. Os dramas se desenvolvem como atos. A trama vai desembocar na amizade de uma mulher com um juiz, ambos com câncer, ela também magistrada. O paralelo que Carrère traça passa pela superação de tragédias: o casal que perde a filha e o pai e três filhas que perdem a mãe.

No meio de tudo isso, ele abre até uma discussão sobre direitos do consumidor, parte da vida dos juízes. O câncer é personagem central da metade para frente, com descrições torturantes, nada explícitas, mas que revelam a dor de quem vive a doença – mais emocional do que física. Alguns trechos são angustiantes, mas Carrère consegue superar e levar o leitor ao próximo ponto, sem que a angústia domine a leitura. Essa condução é algo único.

O limite entre realidade e ficção se perde com a prosa de Carrère, que nos faz pensar no que é ficção ou não. No fundo, não importa saber.

Foi das leituras mais potentes.

Como este trecho de “Wasteland”, a terra devastada do título, obra-prima de T.S. Eliot:

“There is shadow under this red rock
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.”

Trechos

Uma questão de linguagem não me saía da cabeça. Detesto que usem a palavra “mamãe” a não ser no vocativo e num âmbito privado: que mesmo com sessenta anos alguém se dirija dessa forma à sua mãe, ótimo, mas que passada a escola maternal digam “a mamãe de fulano” ou, como Ségolène Royal, “as mamães”, isso me causa repugnância, e vislumbro nessa repugnância uma coisa diferente do reflexo de classe que me provoca urticária quando alguém fala um francês arrevesado na minha frente. Entretanto, mesmo para mim, aquela que ia morrer não era a mãe de Amélie, Clara e Diane, mas sua mamãe, e esta palavra que não aprecio, esta palavra que há muito tempo me deixa triste, eu não diria que não me deixasse triste, mas eu tinha vontade de pronunciá-la. Tinha vontade de dizer, baixinho: mamãe, e de chorar e ser, não consolado, mas embalado, apenas embalado, e adormecer assim.

Eu disse a Hélene: sabe, aconteceu uma coisa. Se me fosse dado a saber, não muitos meses atrás, que eu tinha um câncer, que iam morrer em breve, e eu me fizesse a mesma pergunta que Juliette, será que minha vida foi bem-sucedida?, eu seria incapaz de responder como ela. Teria dito que não, minha vida não fora bem-sucedida. Teria dito que tinha feito coisas bem-sucedidas, tivera dois filhos bonitos e que estão vivos, escrevera três ou quatro livros nos quais o que eu era tomou forma. Fiz o que pude, com meus recursos e meus bloqueios, lutei para fazê-lo, é um balanço positivo. Mas o essencial, que é o amor, me terá faltado. Fui amado, sim, mas não soube amar – ou não consegui, é a mesma coisa. Ninguém pôde repousar confiantemente no meu amor e não repousarei, no fim, no amor de ninguém. Isso era o que eu teria dito no anúncio da minha morte, antes da onda. E então, depois da onda, eu a escolhi, nós nos escolhemos e não é mais a mesma coisa. Você está aqui, perto de mim, e se eu tivesse que morrer amanhã poderia dizer como Juliette que minha vida valeu a pena.

Essa depressão de fato alarmante, Pierre Cazenave analisa-a como o sobressalto desperado desse ser clandestino que, no fundo de você, nunca teve direito à existência e que percebe subitamente que seus dias estão contados. Para quem sempre teve a sensação de existir, o anúncio da morte é triste, cruel, injusto, mas é possível integrá-lo na ordem das coisas. Mas e para quem, no âmago de si, sempre teve a impressão de não existir de verdade? De não ter vivido? A este, o psicanalista propõe transformar a doença e inclusive a aproximação da morte numa última chance de existir de verdade. Ele cita esta frase misteriosa, dilacerante, de Céline: “Talvez seja isto que procuremos ao longo da vida, nada além disto, o maior sofrimento possível para nos tornarmos nós mesmos antes de morrer”.

Assim que se instalou na clínica protestante, Juliette telefonou para Étienne. Ele se lembra das palavras dela: venha, venha imediatamente, estou com medo. E, quando ele entrou no quarto, meia hora mais tarde: é pior do que medo, é pavor.
O que lhe dá pavor?
Com um gesto vago, ela apontou para a sonda que a ligava à bolsa de perfusão, sobre seu suporte: isso. Tudo isso. Continuar doente. Falta de ar. Morrer sufocada.

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