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A desconstrução do escritor, por Sabato

O cineasta Domingos de Oliveira disse certa vez algo como: “Escrever é muito fácil, basta sentar e rasgar o peito com uma faca”. Para Albert Camus, “a obra de arte proporciona (ao escritor) vencer seus fantasmas e se aproximar um pouco mais de sua realidade nua”. E se Roland Barthes defende que o romance é uma morte, Julio Cortázar caminha na margem oposta, “a literatura é uma das possibilidades de felicidade humana”.

Entre a dor da criação e a busca pelo autoconhecimento, o escritor se entrega como a um jogo sadomasoquista. Sofrimento e prazer se relacionam tão intimamente que raramente se percebe a tênue linha que os separa. Foi na tentativa de decifrar o porquê dessa procura incessante, perpétua e quase sempre sem resposta que o argentino Ernesto Sabato legou um dos tratados mais brilhantes sobre o ato de escrever (e criar). “O Escritor e seus Fantasmas” (Companhia das Letras) reúne em suas 202 páginas as ideias que poderiam formar uma hipotética Teoria da Grande Literatura. Sabato investiga o motivo de se escrever ficção, discute o romance ao longo da história e por suas escolas, autores e obras. Ataca e defende na mesma proporção nomes aparentemente inatacáveis, como Borges, e indefensáveis, os críticos. Mutila para depois cicatrizar. Leitores e artistas não escapam. Quer descobrir o papel do autor no mundo, o que faz as pessoas se debruçarem sobre as páginas.

Sabato, autor de “Sobre Heróis e Tumbas” e “O Túnel”, é dono de uma prosa envolvente, que conduz o leitor ao universo narrado com delicadeza e contundência, simultaneidade restrita a poucos mestres na história. Em “O Escritor e seus Fantasmas”, lança mão de sua formação acadêmica (é doutor em física) como um dos pontos importantes no seu questionamento. Junta ciência com história, psicologia, filosofia e política, através da sua Argentina colonizada e europeizada, de forma a construir um quadro amplo, aberto a intervenções e absolutamente instigante. Sabato escreve com espontaneidade. Aforismos, citações, pequenos ensaios, os recursos surgem pelas páginas sem cerimônia, completam-se como se fossem diálogos de uma peça de teatro.

Se existe um guia no livro de Sabato, esse norte é “Crime e Castigo (Editora 34)”, de Dostoievski. Para ele, a obra do escritor russo reúne todas as características fundamentais que fariam parte daquilo que se imagina como romance, literatura que retrata um período de determinada sociedade, com seus dilemas morais, comportamentais e políticos, e representa personagens vivos, também com suas dúvidas, angústias e condutas contraditórias. Para Sabato, um livro só ganha relevância quando todos os lados do ser humano, do mais escuro, escondido por padrões de convivência civilizada, às qualidades mais edificantes estão expostos. A saga do estudante Raskólnikov, que após matar uma agiota encontra defesa no argumento filosófico de comparar seu ato com as decisões de Napoleão, é manancial para toda a história literária. Para Sabato, “Crime e Castigo” carrega mais idéias que todo o Racionalismo, um dos movimentos culturais mais criticados em seu livro. A obra de Dostoievski reúne tudo o que pensa sobre literatura, romance e criação.

Raskólnikov se revela um imperfeito ao agir impulsivamente e logo em seguida racionalizar. Longe de ser um embrião dos psicopatas modernos, o personagem apenas carrega consigo aquilo que qualquer ser leva em seu interno, uma gama de sentimentos, uns moldados ao exterior, outros armazenados nos recônditos e alguns exportados. Esse perfil irá provocar reações várias, ao saber do leitor. Com todas essas impurezas, como prefere Sabato, o ator de “Crime e Castigo” ganha vida própria, deixa de se submeter ao escritor, que apenas transpõe suas ações para o papel. Rebate o que François Mauriac analisa no ensaio “O Romancista e seus Personagens”, para quem “os personagens ajudam a nos conhecer e a tomar consciência de nós mesmos”. Sabato defende essa independência, pois somente com liberdade um personagem faz do livro uma vida, uma obra incompleta, aberta a futuras definições e releituras. É o que Italo Calvino define como clássico, obras que “sempre se revelam novas, ajudam a nos revelar e a descobrir coisas em nós mesmos”, em “Por que Ler os Clássicos” (Companhia das Letras).

sabatoHá um ponto que é marcadamente alvo de Sabato: o Racionalismo, erguido como base do Renascimento. O livro confronta razão e conhecimento, objetivismo e subjetivismo, sustenta que o escritor deve procurar a sua realidade, o seu sofrimento. Por essas trilhas, Sabato descarrega suas influências. Ecoa, 326 anos depois, o “Discurso do Método”, em que Descartes não concebia a separação de sabedoria e ciência. Cita Hölderlin: “O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa”. Extermina a mínima faísca que possa sugerir um arquétipo do romance (a velha rota para fórmulas). Somente dessa forma poderiam ser gerados autores como Balzac e Proust, que dão vida a personagens que pensam e são independentes. E o círculo se fecha. Pois esse personagem, metáfora que encerra e lança conceitos, não irá caminhar na lógica, mas se utilizar da razão para sobreviver e compreender suas emoções. Esse escritor, que combina suas faculdades emotivas e intelectuais, é o que Sabato chama de “escritor consciente, um ser integral”. Ele escreve porque é um ser imperfeito, adjetivo incompatível com a lógica, razão, objetivismo. E a obra resultante é o “romance como expressão da alma”.

Sobre as indagações “por que se escrevem romances” e “de onde surgem as ideias”, Sabato trabalha em duas frentes, que se entrecortam. Para a primeira pergunta, o argentino lança a frase: “Arte é uma revelação de algo, não um fim em si mesma”. Já a chamada inspiração, para o autor, está longe da mitologia das musas. Sabato é cruel, talvez realista, para justificar o ato de escrever. Pois o combate interno nem sempre é bonito de se ver, e medo, solidão e situações limites irão provocar a faísca urgente que apaga o branco da tela, a alvura da página.

Roland Barthes defende esse ponto de partida para a palavra impressa. Em “O Grau Zero da Escrita”, o ensaísta francês alega que a escrita é o próprio fim da obra, não sua publicação. E tenta provar ao justificar o romance, uma entidade “que faz da vida um destino, da lembrança um ato útil e da duração um tempo dirigido e significativo”. O escritor sabe, desconfia que irá mexer em um buraco negro, mas o desejo de memória, da infância (ponto destacado por Sabato), a necessidade de comunicação e de registrar tal momento em um punhado de páginas revolve os obstáculos e o arremessa ao ato. Então, todas as formas de contradições e sentimentos respiram na superfície. Angústias, esperanças, temores, suas misérias e dúvidas, limites que se impõem, paixões são os elementos que provocarão a interpretação do mundo como o conhecemos, oferecido por um ser que sente necessidade de se comunicar e que escolheu uma forma das mais intensas e dilacerantes. Ser impuro, mas verdadeiro, para Sabato, é vital para a sobrevivência. E se para Barthes o romance é uma morte, escrever é viver. E duas menções talvez resumam com precisão essa revelação angustiante. A primeira é de Byron: “Para ser poeta é preciso entregar-se ao demônio”. E do próprio Sabato: “O grande tema da literatura não é mais a aventura do homem, mas a busca da cova para sua alma”.

Esse sofrimento é reforçado por Flaubert, que não poupa a individualidade do escritor. O autor de “Madame Bovary” padece também ao criar um estilo, “dor absoluta, infinita e inútil”. Aos que pretendem recorrer a fórmulas, cabe o ônus de arcar com uma peça sem significado, se a escrita se pretende um organismo vivo, uma obra que possui somente uma palavra para exprimi-la. E cuja missão do romancista é descobrir qual. Sabato novamente justifica a necessidade da verdade, única por definição, na composição da obra. E diz com propriedade que “a palavra jamais procede a idéia, a palavra deve ser uma necessidade para ela”. Em “O Escritor e seus Fantasmas”, a preocupação de Sabato é procurar respostas para a criação, e a palavra, como código, fica restrita a poucas passagens. Uma alternativa de aprofundamento é “Esse Ofício do Verso” (Companhia das Letras), de Jorge Luis Borges, reunião de palestras ministradas no final da década de 60. Somente o capítulo dedicado às metáforas vale mais que alguns anos no ensino brasileiro.

A cada ponto de discussão, Sabato vai saciando seus tormentos, propondo respostas às suas inquietações de escritor. Dois anos antes de publicar “O Escritor e seus Fantasmas”, o autor havia lançado “Sobre Heróis e Tumbas”, romance que detonou os questionamentos de Sabato.

Todas as características que Sabato iria interpretar em 1963 estavam presentes no livro anterior: história, angústias, lembranças da infância, personagens contraditórios e tão vivos como um leitor autobiografado – é difícil ler sobre Martín e não buscar paralelos ao redor. Após gerar o romance, o escritor talvez procurasse compreender tal monumento. É o drama do artista, de não aceitar a grandeza de sua obra, sua repercussão e a necessidade de continuar colocando o mundo entre duas capas. Poucos tiveram (e têm) a coragem de assumir tal risco de exposição. Sabato encarou o desafio e proporcionou aos mortais conhecer um escasso pedaço da arte da criação.

Se o romance tal como Sabato descreve não encontra espaço por estas plagas, segundo as listas dos mais vendidos apontam, é sinal de que algo vai muito mal na cultura de um país. Nesse cenário, “O Escritor e seus Fantasmas” é fundamental para compreender a luta contínua que homens travam para dar um testemunho à História.

Borges disse: “Não creio que um dia os homens se cansarão de contar ou ouvir histórias. E se, junto com o prazer de nos ser contada uma história, tivermos o prazer adicional da dignidade do verso, então algo grandioso terá acontecido”. Resta-nos tão somente a esperança.

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