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O dia em que encontrei Raduan Nassar

Lavoura ArcaicaEm 2005, quando “Lavoura Arcaica” completou 30 anos, a Companhia das Letras lançou uma edição comemorativa do livro. Para marcar a data, Raduan Nassar se encontrou com Luiz Fernando Carvalho, diretor da adaptação cinematográfica, num cinema em São Paulo para falar sobre sua obra máxima.

Para completar os festejos, o filme saía pela primeira vez em DVD, depois de mais quatro anos da exibição no circuito.

Raduan se afastou do público há mais de 30 anos. Deixou uma obra curta – dois romances e uma coletânea de contos – e foi para o campo.

“Um Copo de Cólera”, seu segundo romance, comemora 35 anos neste 2013. Também ganhou edição comemorativa – falo do livro neste post.

Lemal_ruduan_nassarbro de um Raduan Nassar meio que encolhido na mesa colocada em frente à tela, ele de frente para a plateia que lotava a sala de cinema em formato arena. Falou pouco, mas falou, o que, no seu caso, é muito mais do que se poderia imaginar. Estava diante de um autor que havia pouco tinha me conquistado de forma arrebatadora. Nem eu sabia exatamente do impacto que sua obra teria sobre mim.

Li “Lavoura Arcaica” pela primeira vez pouco dias antes do encontro no cinema. Foi impacto fulminante. Li e reli imediatamente. Não sabia como lidar com a força daquela narrativa, com o desenvolvimento que Nassar impôs, com sua prosa potente, quase física. Fui ler o que havia disponível na época – indico o “Cadernos de Literatura” dedicado ao escritor, muito mais do que um guia, quase um apêndice de suas obras.

As viagens que realizei naquele 2005 foram acompanhadas de um exemplar de “Lavoura”. Regularmente, vou à biblioteca e pego um dos exemplares que tenho do livro para ler alguns trechos. Como este:

“O tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia a dia para ser vida nos subterrâneos da memória.”

Naquele 2005, fui ao cinema preparar uma matéria para o jornal “O Tempo”, sobre os 30 anos de “Lavoura Arcaica”. Formatei a reportagem em 30 itens, a lembrar os 30 anos do livro e seus 30 capítulos. O que saiu naquela época foi o texto que segue abaixo.

*****

1
“Estamos indo sempre para casa.”
(“Lavoura Arcaica”)

2
“Confesso que não estou muito à vontade.” Foi assim que o escritor Raduan Nassar abriu a celebração para marcar os 30 anos de “Lavoura Arcaica”, sua estreia na literatura.

3
Em São Paulo, o escritor e Luiz Fernando Carvalho, diretor da adaptação cinematográfica do livro, reuniram-se em um cinema para conversar sobre “Lavoura”. Em seguida, o público assistiu à exibição do filme.

Antes de ler um trecho da obra, Nassar explicitou a sua aversão ao contato público, o que o levou a um “exílio definitivo” no campo. “O que tenho para dizer está nos livros”, encerrou assim o assunto sobre sua curta carreira literária – além de “Lavoura”, “Um Copo de Cólera” e “Menina a Caminho”, este de contos.

Nassar parecia um garoto assustado no palco armado em frente à tela, numa sala estilo arena. Na plateia, Milton Hatoum, Marçal Aquino, Modesto Carone, Selton Mello e mais 180 pessoas. Após ler o trecho escolhido, o capítulo 10, “procurou” escapar das perguntas, fingia que não era com ele, olhava para o lado como a chamar por um amigo num momento de socorro.

Abriu exceção em alguns casos.

3
“Já não leio mais nada, somente prospectos de agricultura”, respondeu ao ser indagado sobre o que lê hoje. A brincadeira como arma de defesa foi sua tônica, mas o autor que escreveu uma das obras mais instigantes da literatura também deixou se abrir um pouco. “O silêncio em que vivo é relativo, não abri mão de atuar na vida.”

Ao que Carvalho completou: “O refúgio não existe. Onde você estiver, será sempre alcançado”. Frase estrutural para o romance.

4
A ânsia de aproveitar da presença de Nassar é grande, suas aparições são raras, as entrevistas, mais ainda. Os paralelos são clichês, Salinger, Pynchon, Bartleby. Mas à resposta clássica do personagem de Melville (“prefiro não o fazer”) sobrepõe-se a breve bibliografia com cavoucaduras que expõem as entranhas de todo ser. E Nassar reabriu um pouco a porta para falar de “Lavoura”. “A experiência da vida construiu o livro”, “Fui movido pela paixão pela literatura, pelas palavras”, frases ouvidas em silêncio pela plateia. As questões giram em torno da força explosiva do texto, uma narrativa curta, mas extremamente bem elaborada, com sonoridade e ritmo. Em seus 30 capítulos, o livro vai se construindo em uma prosa poética única.

“Eu não parti de pressupostos teóricos. Sempre achei que cada escritor tem que fazer o que lhe der na telha. É fundamental o vínculo da literatura com a pulsação da vida”, disse Nassar ao ser questionado sobre seu estilo. “Quando fazia literatura, o que me encantava era o fazer. Para o escritor, a maior realização está na mesa de trabalho”.

5
Citou Jorge de Lima para tentar ilustrar suas opções: “Como conhecer as coisas se não sendo-as”. Nassar não facilita. Assim como sua obra, não quer explicações tampouco interpretações. Vai de um extremo a outro na sua quietude. “Sou um ex-escritor”, “Fazer é o momento em que você se sente vivo”, duas frases que se contrapõem ao olhar para o nome grafado nas capas dos livros, mas que ganham razão na lembrança do homem que vive das plantações.

6
“É através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devemos sempre cruzar os braços.”
(“Lavoura Arcaica”)

7
Nassar se permitiu um momento particular. “Geralmente, a vida é feita de desencontros”, começou, para seguir com uma reverência a Modesto Carone, tradutor e escritor que foi seu primeiro crítico antes de “Lavoura” chegar ao prelo.

8
“Lavoura Arcaica” ganhou edição especial da Companhia das Letras, com capa dura, para a efeméride.

9
Livro e filme dividem o interesse da plateia. Uma professora universitária disse ao diretor da adaptação o quanto as imagens a emocionam sempre que revê o filme. E fez um apelo: “Não volte nunca atrás, siga sempre nesse caminho”, ao que é respondida com palmas. Carvalho, diretor de minisséries globais como “É Dia de Maria” e “Os Maias”, respondeu apenas com a cabeça: “Sim”.

10
Nassar também despejou gratidão. “Tenho admiração pelo Luiz Fernando Carvalho. O filme é um produto autêntico, tem uma autonomia que encerra tudo.”

11
O filme chegou às locadoras após quatro anos de sua exibição nos cinemas – normalmente, uma produção é lançada em DVD seis meses após sua estréia nos cinemas. Carvalho disse que a demora ocorreu porque a produtora do filme não quis bancar os custos dos extras, e o diretor não abria mão dos especiais. A Europa Filmes topou a empreitada e o disco chegou completo. Making of e entrevistas compõem o pacote de um filme que chegou a ter 4h30 de duração, passou para 3h40 até chegar às 2h43 finais.

12
O filme é a transposição das palavras para imagens. Apoiado na fotografia de Walter Carvalho (“Janela da Alma” e “Central do Brasil”) e na música de Marco Antônio Guimarães (Uakti), Carvalho construiu em película uma obra delicada e tensa, filmada numa antiga fazenda de café de São José das Três Ilhas (próximo a Juiz de Fora).

13
Por que a escolha do romance? Carvalho disse que leu “Lavoura” aos 37 anos – “mesma idade de quando Raduan escreveu o livro” – e que a experiência o transformou em definitivo. “Fui tomado pelo livro. Cheguei numa bifurcação e o livro me reorientou e me salvou. Encontrei vida, tudo o que gostaria de ter lido, de ter visto. Me deu coordenadas da vida.”

Carvalho falou do livro como se fosse um amigo, alguém que o acompanhou desde a descoberta até a transposição para a película. “Ele sabe o livro de cor”, brincou um raro Nassar. “Não sei todo de cor, mas algumas partes, sim.”

E Carvalho encontrou, no meio da conversa com o público, sua definição para “Lavoura”: “Eterna luta entre tradição e liberdade.”

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“O tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas.”
(“Lavoura Arcaica”)

15
“Lavoura” é um romance em quatro tempos. O leitor vai encontrar na sua frente muito mais que ficção. Deve estar preparado para revelações forçosas que surgirão ao virar das páginas, a cada tempo.

André, o protagonista narrador, deixa a fazenda onde morava com sua família – pais e sete irmãos – e depois de um tempo é resgatado pelo primogênito, Pedro.

Entre “A Partida” e “O Retorno”, as duas partes que compõem o livro, o leitor se depara com os quatro tempos e vê suas entranhas se contorcerem.

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Os irmãos Pedro e André

16
A infância, a maturidade, a paixão por Ana, uma das irmãs, e a volta, eis os quatro tempos.

17
André foge pois seu tormento não encontra espaço na família, religiosa e tradicionalista, entre a rigidez do pai e a adoração da mãe. Quer mais, mas sabe que na fazenda não irá encontrar. Ao mesmo tempo, sabe que a fazenda é seu lugar. Dessa angústia, André não escapa, e Nassar encontrou na narrativa a forma de sentirmos o que André sente, nos leva à memória do personagem, à sua infância, aos cheiros, aos toques, aos olhares.

O drama fecha seu círculo com a paixão de André por Ana.

18
“Era Ana, era Ana, Pedro, era Ana a minha fome.”
(“Lavoura Arcaica”)

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André não foge da paixão. O capítulo mais intenso do livro é o momento em que Ana vai até o refúgio do irmão, a casa velha da fazenda, e os dois consomem o ato. Depois, André a encontra na capela, muda, a orar, enquanto André começa a despejar seus demônios.

Nassar prende o leitor em um parágrafo único e longo, usando vírgulas com exatidão, fazendo o leitor penetrar no acesso que acomete o personagem.

20
Ana é o equivalente ao pronome “eu” em árabe.

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“Era Ana, era Ana a minha fome”

21
Incesto, epilepsia, heresia, questionamento do poder patriarcal, palavras difíceis de se ouvir em plena ditadura militar e que são partes indissociáveis do livro. Nassar enfrenta esses tabus e escreve uma obra que escancara dilemas universais, como identidade, medo, tradição, liberdade, revolta. O texto, em uma prosa delirante e onírica, capta passagens da vida de André com uma força que derruba o leitor.

22
O texto de “Lavoura” é um tratado sobre o homem, que tenta e quer encontrar razões, motivos. Ou como diz André, que quer ser o “profeta de sua história”, definição que virou lema para Selton Mello após as filmagens.

Das páginas, pode se sentir a transpiração que os combates da mente de André trava consigo, dos diálogos fortes com o pai, do desabafo com Pedro, do desejo por Ana, das memórias de infância que lhe escapam pelo tempo e pelos olhos.

Pode-se sentir a terra úmida.

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“O limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia a dia para ser vida nos subterrâneos da memória.”
(“Lavoura Arcaica”)

24
É na volta para casa que André pretende terminar sua peregrinação, pronto para enfrentar os sermões do pai, o desejo por Ana, o afago exagerado da mãe, a família e Lula, o caçula que acaba seduzido pelo filho pródigo.

25
A parábola bíblica, que faz parte do Evangelho de Lucas, é um dos condutores do romance.

26
A citação que abre este texto e que faz parte do livro pertence ao poeta alemão Novalis, que escreveu há dois séculos: “Para onde estamos indo? Sempre para casa”.

27
Para celebrar a volta de André, o pai manda preparar uma festa, que acaba em tragédia quando mata Ana ao vê-la dançando de forma sensual e vestida com apetrechos que André trouxe de sua vida mundana. A tragédia encerra o livro para escancarar hipocrisia, egoísmo travestido de união, amor que “nem sempre aproxima”, na fala de André.

28
“Por que empurrar o mundo para frente? Se já tenho as mãos atadas, não vou por iniciativa atar meus pés também.”
(“Lavoura Arcaica”)

29
“Lavoura” é retrato particular da imigração libanesa, origem de Nassar, filho de libaneses que nasceu em Pindorama (interior de São Paulo) a 27 de novembro de 1935.

Ao mesmo tempo, poucas obras na história da humanidade captam o drama de ser e do ser com tanta nitidez. O homem que busca seu lugar e não sabe se olha para o passado ou para o futuro. Desse dilema, dos desejos, nasceu “Lavoura Arcaica”.

30
“Toda palavra é semente.”
(“Lavoura Arcaica”)

A dança de Ana encerra livro e filme
A dança de Ana encerra livro e filme

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