Cinema, Comentário, Ensaio, França, Não ficção

De olhos bem abertos: o cinema de Kubrick

716741Da série “Conversas com”, a CosacNaify lançou o volume sobre Stanley Kubrick, escrito pelo crítico francês Michel Ciment. Os anteriores foram dedicados a Woody Allen e Martin Scorsese.

O livro completa o segundo semestre dedicado ao cineasta americano, homenageado da Mostra Internacional de São Paulo e com uma exposição no Museu da Imagem e do Som, também na capital paulista.

Autor de uma das maiores potentes cinebiografias, curta – 13 filmes desde 1951, ano de seu primeiro curto, até 1999, quando morreu -, mas de filmes que não só ecoam hoje como também servem como marcos de “antes/depois”, Kubrick tem seu trabalho dissecado com precisão por Ciment.

O crítico analisa seus principais filmes – “2001”, “O Iluminado”, “Laranja Mecânica”, “Barry Lydon”, “Lolita” e “Dr. Fantástico”  – em todos os seus elementos: fotografia, roteiro, preparação, atores, locação, uma aula de cinema das mais profundas. “Nascido para Matar” e “De Olhos Bem Fechados” recebem capítulos à parte, como para marcar o final da carreira de Kubrick.

Ciment conversou com o cineasta em sets e em seu escritório para a confecção do livro, diferente dos volumes de Allen e Scorsese, formados basicamente por entrevistas. Ciment optou pelo ensaio e pela reportagem em texto corrido para perfilar Kubrick e seu trabalho. Somou ainda depoimentos de atores e profissionais que trabalharam com o diretor.

O cinema de Kubrick, quase todo inspirado por obras literárias, um dos pilares da sétima arte, não facilita para o espectador, não imagina o mundo preto-e-branco e abusa da zona cinzenta de seus personagens e do que a tela revela.

Uma declaração de Kubrick, na entrevista sobre “Laranja Mecânica”, resume com perfeição seu cinema – ela cabe a qualquer um dos seus filmes.

Como você explica essa espécie de fascínio exercido por Alex?
Pelo fato de Alex representar todo o nosso inconsciente, no nível onírico e simbólico em que o filme nos atinge. O inconsciente não tem consciência. No inconsciente, nós matamos e violamos. Quem gosta do filme tem essa espécie de identificação com ele. A hostilidade daqueles que o detestam surge da incapacidade deles em aceitar o que são realmente, talvez da ingenuidade deles, de uma falta de educação psicológica ou de uma incapacidade de admitir esse aspecto do homem. Então fazem acusações insensatas sobre o efeito que o filme supostamente produz. O único personagem com o quel sempre comparei Alex é Ricardo 3º. Não há motivo para não odiar Ricardo 3º, e, entretanto, não podemos deixar de admirá-lo emocionalmente no estado onírico em que nos encontramos quando vemos uma peça ou um filme. Conscientemente, você não admira nem Ricardo 3º nem Alex.

laranjamecanica“Conversas com Kubrick” tem ainda fotos, filmografia detalhada, bibliografia e prefácio de Scorsese. Como seus filmes, é indispensável não só para entender o trabalho de Kubrick, mas também o Cinema, aquele com maiúscula.

No próximo post, eu recupero os dois textos que escrevi sobre os livros de Allen e Scorsese no blog anterior.

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