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Conversas com Woody Allen e Martin Scorsese

No post anterior, escrevi sobre “Conversas com Kubrick”. Neste, eu busco no blog antigo os textos sobre as “Conversas” com Woody Allen e Martin Scorsese. Seguem abaixo.

woody_gdeAssistir a uma filmografia de qualquer cineasta, hoje, não é tão complicado. Basta paciência, ou uma locadora de porte e inteligência, quem sabe um limite amplo no cartão de crédito. Basicamente tudo que já foi feito está disponível, se não no Brasil, no exterior.

Mas de poucos assisti ao trabalho completo, em vídeo/DVD ou cinema. São, claro, cineastas que me dizem algo, que escapam pela minha idiossincrasia, mesmo com seus altos e baixos. Clint Eastwood, Alfred Hitchcock, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, talvez mais um ou outro.

Woody Allen faz parte do restrito círculo. Cineasta que marca presença anualmente, tem obra extensa, de poucos baixos. Talvez não cite nenhum filme dele em uma possível lista de favoritos, mas sua obra estaria presente.

O livro “Conversas com Woody Allen” (CosacNaify) revela esse personagem e mostra como o diretor se transformou nessa marca. Reunião de entrevistas feitas ao longo de mais de 30 anos por Erix Lax, o livro trata de todas as fases de uma produção cinematográfica – direção, locação, trilha sonora, elenco, cada tema um capítulo, em que se juntam entrevistas relacionadas.

Pouco se lê sobre a vida pessoal do diretor – algumas citações de suas relações com Diane Keaton, Mia Farrow e Soon-Yi. Mas seu trabalho é dissecado em entrevistas feitas durante as filmagens, a divulgação ou a preparação de seus filmes.

Do cineasta que legou um protótipo, o nova-iorquino estressado, cheio de dúvidas, psicanalisado, inseguro, vem um fã de cinema, alguém muito mais apaixonado do que técnico.

O jornalista teve acesso a Allen por três décadas, o que o levou a aparar arestas e resolver dúvidas que entrevistas podem às vezes deixar. Não raro ele retoma questões levantadas anos antes, para esclarecer.

Fica claro que o objetivo não é colocar Allen contra a parede, mas sim destrinchar o método de trabalho do diretor. Da escolha de histórias à sua influência de Ingmar Bergman, Lax investiga um fã de cinema – em muitas vezes ele deixa claro que não é técnico, que é mais intuitivo e que confia nos profissionais com quem trabalha.

O livro então permite saber como Allen escolhe a trilha sonora dos seus filmes, como ele opta pelas locações e atores, como nasceram roteiros como o de “Annie Hall” e “Manhattan”. Entre outras coisas que a memória de seu trabalho vai puxando.

Para quem gosta de cinema, mesmo que Allen não seja dos prediletos, o livro é delicioso. E para quem gosta de uma boa conversa, é imperdível.

Trechos

“Os meus filmes não estimularam a opinião do país em temas sociais, políticos ou intelectuais. São filmes modestos, feitos com orçamentos modestos, que produzem lucros extremamente modestos e não abalam de forma alguma o mundo do show business. Não tem jovens diretores correndo para me imitar e fazer filmes do jeito que eu faço. Nunca tive domínio técnico suficiente, ou suficiente profundidade de ideias para fazer ninguém pensar. Sou um piadista de Brooklyn-Broadway que teve muita sorte.”

“Acho que sou um pouco – sem o gênio especial que ele tinha – como Thelonius Monk no jazz, que era uma coisa à parte. Ninguém realmente tocava como o Thelonius Monk, nem quer tocar, mas, como eu disse, ele tinha gênio, e eu tenho apenas um talento para divertir. E eu não sou uma pessoa modesta demais. Quando sou bom, sei apreciar a mim mesmo. Não sou triste, nem confessadamente masoquista a esse respeito, mas sou inteligente o bastante para saber que explorei ao máximo meus dotes limitados, ganhei um bom dinheiro em comparação com o meu pai e, o mais importante, de longe preservei minha saúde.”

“Tinha um cara que queria financiar um filme meu e escreveu que entendia todas as minhas liberdades e que queria me dar um valor x de dólares, o que era um pouco limitado, e tudo o que exigia era uma sinopse de cinco páginas. E nós mandamos um e-mail de volta dizendo que eu não fazia sinopse de cinco páginas nem para mim mesmo. Não faço uma sinopse nem de uma página para mim. Nunca dei para ninguém que fez os meus filmes mais do que três ou quatro linhas, para os medos de sobrevivência básicos serem aplacados: que é colorido, que é contemporâneo – porque ninguém quer filme de época, em preto-e-branco, nada que se passe no século 14 e trate do silêncio de Deus.”

“Tive carta branca durante trinta e cinco anos e nunca fiz um grande filme. Não está em mim fazer um grande filme; não tenho visão nem profundidade para fazer isso. Não digo para mim mesmo: Vou fazer um grande filme e vou ser intransigente. Se for preciso, trabalho noites a fio e vou aos extremos da Terra. Esse simplesmente não sou eu. Eu gostaria de fazer um grande filme, desde que isso não atrapalhe a minha reserva para o jantar.

“Não quero ir viajar. Não quero trabalhar até altas horas. Quero voltar para casa a tempo de jantar, tocar a minha clarineta, ver o jogo, ver os meus filhos. Então, nessas circunstâncias, faço o melhor filme que posso. Às vezes, tenho sorte e o filme sai bom. Às vezes, não tenho sorte e não sai bom. Mas com certeza fui, não irresponsável, mas preguiçoso.”

*****

22931460“Conversas com Scorsese” (CosacNaify) é uma deliciosa viagem não somente ao cinema do diretor norte-americano, mas também à arte de forma ampla. Entrevistado pelo crítico e documentarista Richard Schickel, Scorsese abre sua verve para falar de técnicas, influências, cultura, tradições.

Diferentemente de “Conversas com Woody Allen”, em que Eric Lax conduz a conversa por temas, este é conduzido pela cinebiografia do diretor. Cada filme de Scorsese ganha um capítulo (de “Sexy e Marginal” a “Ilha do Medo”), para falar de roteiro, fotografia, atores e bastidores. Além desses, há capítulos dedicados atores, estúdios, música e John Ford.

A memória e a cultura cinematográfica de ambos envolve o leitor e força a colocar ao lado uma caderneta para anotar filmes citados. Scorsese não repele nenhum tema, nenhuma pergunta. É detalhista e vai buscar histórias para deixar tudo detalhado. Então, lemos bastidores de filmagens que raramente uma publicação revela.

É uma pequena aula de cinema, enriquecida pelo talento de Scorsese e Schickel.

Trecho
“Então, nesse dia de manhã, eu estava no set e a rua estava viva – havia toda aquela gente correndo de um lado para outro, e era um dia muito, muito quente. De repente, alguém aparece do meu lado e diz” “Tenho umas ideias, umas ideias!” Era Jack (risos). E isso virou a cena que se vê no filme, na qual, basicamente, ele cheira o conhaque. E ele cheira Leo e diz: “Sinto cheiro de rato”. Aí ele aponta a arma para Leo, sem que Leo soubesse. E sem eu saber! Eu não sabia se ela ia atirar ou não. Mesmo usando balas de pólvora seca, é muito perigoso, e eu não sabia bem o que ia acontecer.
Esse tipo de coisa leva a outro nível de realidade. Quando ele encosta a arma daquele jeito, você vê a cara do Leo e sabe que aquela é a reação pura, nada montado, nada cortado. Eu não sabia para onde a cena ia depois. Porque Leo era o reto e ele tinha de sair daquela sala.
Mas como ele ia fazer isso? Eu estava prendendo a respiração. E aí ele faz aquilo, convence Jack. Como ator, Jack sentiu o desespero de Leo, viu isso nos olhos dele e o jeito com perguntou: “Sabe, Frank, quantos caras por aí querem te pegar?”. Isso pôs Jack nos trilhos outra vez.”

(sobre “Os infiltrados”)

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3 thoughts on “Conversas com Woody Allen e Martin Scorsese”

  1. Gosto de Scorsese e gosto muito de Allen, que talvez seja o meu cineasta preferido. Quando comprei o livro com as entrevistas dele e a caixa de 20 DVDs dele, vi ou revi alguns filmes excepcionais e outros cheios de encantos. Ao contrário do que ele mesmo diz, é um gênio. De Scorsese, vi semana passada Caminhos Perigosos (como Harvey Keitel é bom ator) e acompanho sua carreira com interesse. Mas meu mundo se identifica muito mais com a Manhattan romântica do Upper East Side do que o submundo italiano de Nova York. Preciso comprar o livro de Scorsese. Kubrick não me encanta tanto.
    Segue mais um trecho que considero excepcional do livro de Allen:
    “Existe uma porção de gente que escolhe levar a vida de um jeito completamente autocentrado, homicida. Pensam assim: já que nada significa nada e eu posso me dar bem com assassinato, vou fazer isso. Mas pode-se também fazer a escolha de que estamos vivos, e outras pessoas estão vivas, e estamos juntos num bote salva-vidas e é preciso tentar e fazer o bote ser o mais decente possível para você e para todo mundo. E me parece que isso é muito mais moral, e até mesmo muito mais ‘cristão’. Se você admite a terrível verdade da existência humana e escolhe ser um ser humano decente diante dela, em vez de mentir para si mesmo que vai haver uma recompensa ou um castigo celestial , isso me parece mais nobre”. (Desculpe o tamanho do comentário, ficou enorme).

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    1. Estou namorando essa caixa de 20 filmes já há algum tempo. Woody Allen é daqueles que sempre vale uma revisão – e agora quero assistir seu último, Blue Jasmine. Gosto muito de Scorsese, apesar de seus últimos filmes serem irregulares, com exceção do Hugo Cabret.
      Quanto ao tamanho, nem se preocupe.

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