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Uma viagem de cheiros e memória

Gyula Krúdy é considerado o maior autor húngaro por nomes como Sándor Márai e Imre Kertész, este Prêmio Nobel de Literatura em 2002, mas sua obra é pouco conhecida no Brasil.

O_COMPANHEIRO_DE_VIAGEM_1238107701PDono de imenso catálogo de romance, crônica, ensaio, teatro e conto, Krúdy só tem três opções em português: contos selecionados para as coletâneas “Contos Húngaros” (Hedra) e “Antologia do Conto Húngaro” (Topbooks) e a novela “O Companheiro de Viagem” (CosacNaify).

É uma prosa de pouco mais de 70 páginas, este “O Companheiro de Viagem”, publicado em 1918 e considerado como sua obra mais madura.

Numa viagem de trem, um homem puxa conversa com o passageiro ao seu lado. Começa a contar sua história numa pequena cidade, chamada de X. É o tal do companheiro de viagem, que só surge no início, quase que só para justificar o título.

O escritor húngaro parte então para tecer as memórias desse personagem, sem nome certo, de um passado errante e onírico. Ao passar pela cidadezinha, a X, envolve-se com algumas mulheres e se vê preso a confusões com elas. Krúdy extrai cheiros das relações erráticas que o protagonista engata com as mulheres, num misto de memórias e anseios.

A prosa de Krúdy lembra muito a de Raduan Nassar, um pouco mais “suave”, talvez. Classificada como música por Paulo Rónai, a prosa do húngaro é daquelas que deixam rastros a cada vez que as páginas se fecham.

A edição da Cosac traz ao final uma pequena ficção de Sándor Márai (“Libertação” e “Rebeldes”, ambos Companhia das Letras), “Szindbád Volta para Casa”, referência ao duplo constante na obra de Krúdy e homenagem ao autor.

*****

“Cheguei a passar duas vezes pela janela. Detrás das cortinas brancas dos quartos, o sono era profundo, como se todos na casa tivessem morrido e talvez somente o cão de guarda lesse no alpendre as batidas noturnas das horas. Ela, na cama com o marido e as crianças, dormia com um olho aberto para não se entregar. Talvez nunca tenha havido noite mais silenciosa em X.”

“Ninguém traz consigo à igreja um pensamento que seja novidade. Todos estremecem ante os músculos enormes, capazes de matar o dragão, da montaria de São Jorge, porque na semana que passou sonharam com um enorme cavalo parecido. Não tremam, vossas mães também sonharam com o cavalo de São Jorge e, ainda assim, viveram para ser belas senhoras, vê sonhos parecidos nas almas das mulheres. Mas por que vivemos, se não somos capazes de ter sonhos novos?”

“A tristeza rodava a meu redor como naquele instante as gralhas em volta da torre. Não, eu não era mais o crédulo que imaginava árvores de Natal, pessoas felizes, famílias cheirando a bolo, moças sonhadoras, homens sisudos a fumar cachimbos nas casas. A noite invernal era longa e a solidão, medonha. Seria felicidade grande sentar-se entre viajantes alegres numa estação de trem iluminada, adormecer de olhos entreabertos a um canto do vagão e acordar numa cidade grande, estrepitosa, recendendo a carvão.
Naquela noite, não esperei por Esztena.”

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