Brasil, Entrevista, Ficção

Sobre herança e traumas

Quando saiu a lista de escritores brasileiros que iriam compor a edição da “Granta” (Objetiva), em julho de 2012, o barulho foi intenso. Como é comum em listas, queixas, dúvidas sobre o processo, a defesa de um nome, o ataque a outro contaminaram o debate e a divulgação daqueles que, segundo a publicação, são os 20 melhores jovens escritores do país.

13083_gUma das poucas unanimidades foi o gaúcho Michel Laub, que entrou na lista com o conto “Animais”. Na época, Laub já conquistara a crítica com o seu “Diário da Queda” (Companhia das Letras).

Laub foi editor-geral da extinta revista “Bravo!” e hoje é colunista da “Folha”. Lançou neste ano “A Maçã Envenenada” (Companhia das Letras), segunda parte da trilogia iniciada com “Diário da Queda”.

No primeiro volume, o escritor vai aos anos 80, quando um garoto presencia um ato traumático e tem que conviver com as consequências. Na sua família, há ainda a presença do avô, sobrevivente de Auschwitz, que vai impor uma sombra no protagonista, como uma herança histórica.

13580_gg“A Maçã Envenada”, título tirado de um verso da música “Drain You”, do Nirvana, avança uma década e chega às vésperas do show do Nirvana no Brasil, em 1993. Um jovem serve ao Exército e planeja uma fuga do quartel para assistir ao show com a namorada. Para isso, precisa contar com uma boa dose de sorte e companheirismo, o que ele acaba não encontrando.

O arco narrativo avança até o suicídio de Kurt Cobain, em 1994, um dia antes do início da guerra civil em Ruanda. Os atos ligados ao Nirvana compõem a herança cultural do narrador, que vai ter sua vida marcada também por ato trágico, desta vez na metade final do livro. Guerra e herança, assim como em “Diário da Queda”, formam a espinha dorsal das obras de Laub.

A terceira parte da trilogia está idealizada, terá como pano de fundo os anos 2000, e o protagonista dará um salto geracional – no primeiro livro, ele tem 13 anos, passa aos 19 no segundo e chegará aos 35, 40 anos no fechamento.

Michel Laub conversou com o blog para falar sobre “A Maçã Envenenada”. A seguir, leia os melhores trechos da entrevista.

michel-laub

*****

O ponto de partida de “A Maçã Envenenada” é o show do Nirvana no Brasil. Você assistiu às apresentações? Qual sua relação com a banda?
Não. No livro, junto um pouco do que vi no vídeo desse show e nos de outros shows do Nirvana, além de trechos inventados. Gostaria de ter ido, sim. Eu gostava muito da banda, embora não fosse fã como a personagem do livro.

No “Diário”, o fato trágico acontece logo no começo e vai determinar todo o caminhar do romance. Já na “Maçã”, a tragédia fica rondando os personagens e só surge do meio para o final. O que fez mudar esse balanço?
Isso nunca é planejado antes. A história é que pede um andamento x ou y. De qualquer modo, não acho que o “Maçã” seja um livro de surpresas, porque as coisas são até certo ponto previsíveis, tirando o finalzinho. Na estrutura dos capítulos, inclusive, e ao contrário de livros anteriores, as revelações não são feitas de modo a fazer um clímax. Muitas vezes elas estão lá no meio de um parágrafo, de uma forma mais natural (pelo menos para mim).

A guerra também é tema recorrente na trilogia. Auschwitz e Ruanda têm papéis diferentes nos dois romances – o primeiro como linha direta com o protagonista e o segundo de forma a sintetizar os sentimentos do narrador. Por que a guerra como elemento das tramas?
Os dois livros falam de heranças históricas e culturais, mas no “Diário” a ênfase é na história, daí a ligação direta da família do protagonista com a Segunda Guerra. No “Maçã”, a história é mais discreta, a ênfase fica mais na questão cultural, na relação do protagonista com um ídolo. Essa relação é menos direta, uma idealização de algo distante. Por isso a coisa parece mais longínqua mesmo, até mais fria sob certo aspecto. Era justamente esse aspecto que me interessava – algo que é muito importante na sua vida, mas não tem relação direta com você, é mais difícil de justificar. Como quando alguém chora por causa de um ídolo que morreu, um sujeito com o qual você nunca falou na vida.

Em determinado momento, o narrador diz: “O acidente aconteceu por causa da bebida, a viagem a Londres por causa do acidente, a mudança de profissão por causa da viagem a Londres, a saída de Porto Alegre por causa da mudança de profissão, e as coisas que fiz e a pessoa que me tornei por causa disso tudo”. Até que ponto o acaso é determinante para o narrador?
É um pouco a questão do livro e de vários livros meus: o que é acaso e o que é escolha. Uma questão velha como a humanidade, mas que ainda pode render ficcionalmente.

“Diário da Queda” e “A Maçã Envenenada” fazem parte de uma trilogia. A última parte irá se passar nos anos 2000. O epílogo seguirá a mesma estrutura dos romances anteriores?
Vai se passar no mundo adulto, o que daria um pulo geracional – “Diário” se passa quase todo com um garoto de 13 anos, “A Maçã” com um de 19 e agora será com alguém de 35 ou 40. Também não tratará de uma herança histórica (“Diário”) ou cultural (“Maçã”). Mas tudo ainda é muito abstrato. Quando se começa a escrever as coisas sempre mudam. É possível que o tal livro nem saia. Nunca dá para saber.

Sobre a trilogia, ela foi um projeto concebido antes do “Diário” ou foi algo que emergiu durante o processo de escrita?
Comecei “A Maçã” antes do “Diário”. Desisti e retomei só depois, quando percebi que os livros tinham uma ligação forte, assim como esse livro que quero escrever agora, e no qual penso há muito tempo. Daí a trilogia.

Na época de divulgação dos autores da “Granta”, Roberto Feith (editor da Objetiva, que publica a revista) disse que os escolhidos “vão definir os caminhos da literatura brasileira nos próximos anos”. Quais são esses caminhos? Como você vê a atual produção brasileira?
Esta é uma resposta para os críticos, para a academia. Por muitas razões, entre as quais a falta de tempo, acompanho menos do que gostaria a produção atual.

O que a participação na “Granta” já lhe trouxe? Como está a carreira internacional dos seus livros agora?
O “Diário” já tinha uma carreira internacional antes da Granta. Mas claro que qualquer divulgação ajuda. O livro começou a sair lá fora este ano, e até o fim de 2014 deve estar em 11 países.

A estrutura dos seus romances – capítulos curtos, numerados, tramas que se entrecortam – é herança da experiência jornalística?
Não. Considero um erro achar que minha linguagem é jornalística. A sintaxe dela é até confusa, labiríntica, o contrário da ordem direta e da objetividade típicas do texto de imprensa. Mas é só minha opinião, claro. Cada um lê de um jeito.

Ter sua obra classificada como autoficção incomoda? Ou você acha que “romance de formação”, como José Castello escreveu, se encaixa melhor na sua literatura?
Escrevo do mesmo jeito há uns 15 anos, e o termo “autoficção” entrou na moda agora. Inclusive é um erro a aplicação do termo para livros como o meu (que seriam mais autobiográficos, se fossem, do que autoficcionais). Mas isso, também, é um problema da crítica. Escrevo do jeito que quero e consigo para dizer o que quero e consigo. Quanto ao “romance de formação”, aí sim dá para identificar um modelo mais ou menos clássico no qual me enquadro. Mas, novamente, é só um modelo. Os livros valem por si, no bom e no mau sentido.

Como anda o processo de adaptação de “Diário da Queda” para o cinema? “A Maçã” já recebeu propostas?
“A Maçã” não tem propostas até aqui (aceito, principalmente se forem milionárias). Há um roteiro para o “Diário”, mas não sei em que pé anda.

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