Comentário, Ficção, Marrocos

Do Marrocos, anos incríveis

O_ULTIMO_AMIGO_1327443063PExpliquei neste post porque fui ler “O Último Amigo” (Bertrand Brasil), do marroquino Tahar Ben Jelloun.

Ele entrou no meio da leitura de “Viva México”, minha leitura de então, como um intrometido que sabe que pode dar uma carteirada. Suas 127 páginas foram percorridas em duas noites – mas poderiam ter sido em uma só, se o dia seguinte não ficasse buzinando no meu consciente.

A história é simples. Dois amigos de infância crescem no Marrocos, passam pelos agouros da juventude, enfrentam a política local, estudam, falam de mulheres, da vida sexual, tomam rumos profissionais distintos e moram em países distantes. Tentam manter contato, que vez ou outra cai, mas sempre é retomado com aquela sensação de que um dia apenas passou, e não anos.

Essa é a história. Simples, como tantas vezes contadas. Mas Jelloun retira da simplicidade um algo mais que poucos conseguem. Mergulha no profundo dos personagens com sutileza, sem cair em soluções fáceis e maneirismos. Nem pieguice. Não, este não é um livro para chorar. Longe disso.

Ele conta a história de Ali e Mamed por meio de suas próprias vozes. Primeiro, Ali apresenta e desenvolve a memória. Depois, Mamed repassa alguns pontos e explica certas passagens que não ficaram claras na voz de Ali.

Há um ponto de convergência, que vai desembocar no final, a carta citada por Ali logo na abertura e que é transcrita no último capítulo, uma carta de Mamed. Lá pelo meio, o leitor já sabe o que vai acontecer, mas não importa mais o desfecho. O marroquino seguiu a máxima de Alfred Hitchcock: “Não importa o final, o que é importa é como chegar a ele”, ou algo assim.

A história de uma amizade que ultrapassa todo tipo de obstáculo gerou um pequeno prazer, uma novela que só caiu nas minhas mãos por causa de uma conversa no Facebook. Nunca ouvira falar do escritor, nem me lembrava de ter visto seu livro – a edição brasileira é de 2006. Entrou e saiu da cabeceira por portas especiais. E ganhou seu lugar na biblioteca.

“Alguns dias mais tarde, senti necessidade de escrever para Mamed. Fiz diversos rascunhos. Eu queria evitar o patético, a mesquinharia, os sentimentos de desprezo e, sobretudo, não dissecar ponto a ponto. Ele sabia que o que dissera era falso, mas por que havia sentido necessidade de desabafar daquele jeito? O que se escondia por trás daquele drama? O que queria me dizer o meu amigo? (…) A resposta não tardou mais do que uma semana. Uma carta breve e seca, em um envelope em papel reciclado.”

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