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Drummond: poeta, vadio, anárquico e piromaníaco

carlos-drummond-de-andradeHoje, 31 de outubro, Dia D, de Carlos Drummond de Andrade, dia em que o poeta faria 111 anos, também é dia de lembrar de sua obra.

SENTIMENTO-DO-MUNDO2O blog, claro, recomenda a leitura dos livros de Drummond. Especialmente “O Sentimento do Mundo” (Companhia das Letras), do reflexivo “Os Ombros Suportam o Mundo”:

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.”

 

Ou “Claro Enigma” (Companhia das Letras), que traz o soberbo “A Máquina do Mundo”:

“A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.”

2011-confissoes-de-minasO blog também gosta de “Confissões de Minas” (CosacNaify), reunião de resenhas, ensaios e perfis. Uma joia deliciosa, que mostra um poeta se arriscando na prosa – mas sem saber como deixar de lado seu lado lírico. Assim ele termina um texto em que relata a morte de Federico García Lorca:

“Um ano depois do seu brado melancólico, a poesia está viva, e sua luz, de tão fulgurante, algumas vezes torna-se incômoda.”

 

 

2207069Mas o blog gostaria de recomendar, depois de uma releitura nesta manhã de trechos, o “Dossiê Drummond” (Globo), de Geneton Moraes Neto. Um livro fabuloso, uma longa entrevista com o poeta, a última grande entrevista, feita em 1987, ano de sua morte, acrescida de depoimentos de leitores e admiradores.

Mais do que um painel, é uma reportagem bibliográfica, como afirmou Paulo Francis. Geneton pontua as perguntas com versos de seus poemas, o que ajuda na compreensão da obra e sua inspiração.

A leitura é generosa. Drummond era crítico e revelador. Como nas duas perguntas a seguir:

Os poemas que ficaram mais populares são casualmente os melhores?
Nenhum poema meu ficou popular. A verdade é essa. Considero poema popular, nas gerações antigas, o “Ouvir Estrelas”, de Olavo Bilac; o “Mal Secreto”, de Raimundo Correia; “Meus Oito Anos”, de Casimiro de Abreu; “A Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias. São dois ou três. Nenhum outro fica. Geralmente, são poemas pequenos que a memória guarda com mais facildade
De mim, ficaram versos. “E agora, José?”, não é verso; é uma frase. “Tinha uma pedra no meio do caminho” – e só. Não creio que tenha ficado mais nada. Não houve poema meu propriamente popular. Em geral, as pessoas guardam a imagem do poeta, não guardam o verso.

Quando era jovem, o senhor incendiou um bonde em Belo Horizonte, num protesto contra o aumento das passagens…
Eu não incendiei o bonde: seria uma atividade muito difícil para uma pessoa só. Eu ajudei a incendiar! É uma coisa de maluco. Começou num protesto contra a elevação do preço do cinema para os estudantes e acabou na rua, destruindo bonde. Havia uma coisa em Belo Horizonte que era considerada ruim: o serviço de bondes de uma empresa particular. O bonde não chegava na hora, atrasava, faltava muito. Havia uma certa raiva contra o bonde. Então, eu ajudei, naquele momento de raiva, a queimar um bonde.

*****

A sequência da entrevista é sensacional. Drummond fala de seu lado piromaníaco, anárquico e afirmou ser um vadio na juventude.

Este livro de Geneton é tão biblioteca básica quanto os livros de Drummond.

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3 thoughts on “Drummond: poeta, vadio, anárquico e piromaníaco”

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