Estados Unidos, Música, Obituário, Poesia

Lou Reed, 1942-2013

Lou ReedVi Lou Reed ao vivo em 1996, quando ele veio ao Brasil e tocou em São Paulo. Foram shows disputados – dois em SP e dois no Rio -, daqueles eventos em que você deveria estar. Fui com meu amigo de faculdade e companheiro de prédio da “Folha”, Paulo Sales, do blog Este Lado do Paraíso.

Um show que começa com “Sweet Jane” e termina com “Satellite of Love” só pode ser memorável.

Não me lembro quando conheci a música de Lou Reed, mas sei que foi impossível ficar imune ao seu rock seco, inventivo e ao seu arsenal literário. Suas letras, sempre lidas como poemas, abriam horizontes.

As ruas eram seu principal caldeirão, uma Nova York decadente dos anos 60/70 que poucos viam, mas que emergiu violentamente nos 80. Lou Reed antecipara em uma década, pelo menos.

Lou Reed - transformerSeus discos eram livros. “Transformer” (1972) era um tratado sobre sexo, drogas e transgressões. Como este ode à heroína, em “Perfect Day”:

“Just a perfect day
You made me forget myself
I thought I was someone else
Someone good”

Que também é uma canção de amor, por que não, que críticos dizem ser creditada a Bettye Kronstadt, sua primeira mulher.

lou reed_berlin“Berlin”, uma ópera em homenagem a um casal em decadência, com temas como depressão, drogas, suicídio, é um dos grandes álbuns já compostos.

O desespero exalado em “How Do You Think It Feels” é cortante:

“How do you think it feels
when you’re speeding and lonely, come here baby
How do you think it feels
when all you can say is if only

If only I had a little
if only I had some change, come here baby
If only, if only, if only”

lou-reed-newyork

Lou Reed escreveu a mais contundente crônica musical a uma cidade, “New York”, disco de 1989. De crueza ímpar, as canções mostram uma urgência em viver a cidade, em enxergar o caos em meio ao ambiente em que Reed se sentia mais confortável.

Como em “Dirty Blvd.”:

“Give me your hungry, your tired, your poor I’ll piss on ‘em
That’s what the Statue of Bigotry says
Your poor huddled masses
Let’s club ‘em to death
And get it over with and just dump ‘em on the boulevard”

Ou em “There Is No Time”, um rock acelerado em que o lado mais niilista de Reed emerge com violência:

“This is no time for celebration
This is no time for shaking Hands
This is no time for backslapping
this is no time for marching Bands

This is no time for optimism
this is no time for endless Thought
This is no time for my country Right or Wrong
Remember what that brought

There is no time
There is no time
There is no time
There is no time

This is no time for congratulations
This is no time to turn Your Back
This is no time for circumlocution
This is no time for learned speech

This is no time to count Your Blessings
This is no time for private Gain
This is the time to put Up or Shut Up
It won’t come back this way again

There is no time
There is no time
There is no time
There is no time

This is no time to swallow Anger
This is no time to ignore Hate
This is no time to be Acting Frivolous
Because the time is getting late

This is no time for private vendettas
This is no time to not know who you are
Self knowledge is a dangerous thing
The freedom of who you are

This is no time to ignore Warnings
This is no time to clear the Plate
Let’s not be sorry after the fact
And let the past become out fate

There is no time
There is no time
There is no time
There is no time

This is no time to turn away and drink
Or smoke some vials of crack
This is a time to gather force
And take dead aim and attack

This is no time for celebration
This is no time for saluting Flags
This is no time for inner Searchings
The future is at hand

This is no time for phony Rhetoric
This is no time for political Speech
This is a time for action
Because the future’s within Reach

This is the time
This is the time
This is the time
Because there is no time

There is no time
There is no time
There is no time
There is no time”

Magic And LossNa sequência de “New York”, Lou Reed escreve o que talvez seja o melhor trabalho sobre a morte, “Magic and Loss” (1992). Suas letras encarnam despedidas, doenças, sonhos, memórias, numa poesia pulsante e, por que não, viva.

Como em “Power and Glory, Part 2 (Magic Transformation)”:

“I saw a man turn into a bird
I saw a bird turn into a tiger
I saw a man hang from a cliff by the tips of his toes
In the jungles of the amazon

I saw a man put a redhot needle through his eye
Turn into a crow and fly through the trees
Swallow hot coals and breathe out flames
And I wanted this to happen to me
Oh, I wanted this to happen to me”

loursongA morte já havia sido tema de “Songs for Drella” (1990), parceria com John Cale em homenagem a Andy Warhol, morto em 1987 e que fora um dos incentivadores de Lou Reed no início do Velvet Underground.

Pungente, o disco ressuscitava metade do Velvet para celebrar e se despedir de um de seus mentores. Assim fechava o álbum, em “Hello It’s Me”:

“Oh well now Andy, guess we’ve got to go
I hope some way somehow you like this little show
I know it’s late in coming but it’s the only way I know
Hello it’s me, goodnight Andy

Goodbye, Andy”

12758_gA Companhia das Letras lançou em 2010 “Atravessar o Fogo”, compilação de 310 letras de Lou Reed, volume que encerrava questão quanto à força poética do músico. Suas composições já tinham influenciado boa parte das bandas que surgiram depois do lançamento de “The Velvet Underground & Nico”, em 1967. A revisão de suas letras, transformadas em poemas quando transpostas para um livro, fechava o círculo.

Sua morte comprova o quanto Lou Reed foi fundamental para que a metade final do século 20 fosse compreendida, com seus olhos e pés nas ruas, naquilo que se chamou de underground, recheado de personagens à margem da sociedade. Lou Reed não apenas traduziu esse universo, como também deu voz.

Voz que foi praticamente a única a ser ouvida naquela noite de 10 de setembro de 1996. A plateia do antigo Palace ouvia Lou Reed cantar e tocar em silêncio, a reverenciar o artista em cima do palco.

Noite única.

lou-reedoverObrigado, Lou.

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