Arquivos, Comentário, Ficção, Uruguai

Dos aquivos: “A Trégua”, de Mario Benedetti

a-tregua1

Entrar na obra de um autor é sempre um enigma. Pode-se começar pelo romance mais fraco e incorporar uma certa antipatia, o que, em alguns casos, desestimula a descoberta.

Mas há casos em que o início é com um livro que pode não só abrir portas, mas possibilitar descobertas e mergulhos no universo do autor.

“A Trégua” (Alfaguara), do uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), foi o livro que me apresentou o escritor. Talvez não exista um título mais forte para começar a coleção de Benedetti do que este.

Publicado pela primeira vez em 1960, “A Trégua” é a obra-prima de Benedetti. Escrito em forma de diário, narra o cotidiano de Martín Santomé, prestes a se aposentar aos 50 anos. Mora com os três filhos, é viúvo – sua mulher morreu logo após dar à luz o terceiro rebento. O livro começa nessa instantâneo em que a vida de Santomé está prestes a mudar, a entrar num ócio que ele não sabe como irá lidar.

Nesse momento, Santomé, escreve ele no final, recebeu uma trégua de Deus.

Laura Avellaneda é uma nova funcionária e sua subordinada. Ele começa a enxergar uma possibilidade de reviver o amor, deixado esquecido depois da morte de Isabel. O ócio ganha um motivo de existir.

Benedetti escreve com intensidade, é preciso ao captar as emoções dos personagens narrados pelo olhar de Santomé. Poucas vezes o tema solidão foi tão bem tratado, ao mesmo tempo em que o amor é também tema central. Distante dos filhos, busca conviver de uma forma mais suportável. Encontra na filha o porto seguro. Repassa os quase 30 anos que viveu sem Isabel, escancara a impaciência com alguns próximos. E é tocante ao narrar a relação com Laura.

Lírico na medida certa, sem transbordo de emoções desnecessárias, Benedetti montou uma obra enxuta, de fôlego curto – são 184 páginas na edição brasileira -, ao mesmo tempo suave e intensa, como é característico em sua prosa.

“Creio que meu desejo físico mais veemente me foi inspirado por ela (…) Por que as palmas das minhas mãos têm uma memória mais fiel do que a minha memória?”

“Talvez não precise dizê-la mais, porque não é um jogo: é uma essência.”

“Talvez esse momento tenha sido excepcional, mas, de todo modo, eu me senti viver. Essa opressão no peito significa viver.”

“Estou fatigado (e nesse caso a fadiga é quase uma repulsa) da dissimulação, dessa dissimulação que a gente aplica como uma máscara sobre o velho rosto sensível.”

12
O escritor uruguaio Mario Benedetti

 

Anúncios

9 thoughts on “Dos aquivos: “A Trégua”, de Mario Benedetti”

  1. Esse livro é uma porrada. Benedetti escreve bem demais, tem uma capacidade única de ser emotivo e seco na mesma medida. Não dá para sair indiferente dele. Gosto muito, também, de Gracias por el fuego. Segue uma contribuição aos trechos que você selecionou:
    “É evidente que Deus me concedeu um destino escuro. Nem sequer cruel. Simplesmente escuro. É evidente que me concedeu uma trégua. A princípio, relutei em acreditar que isso pudesse ser a felicidade. Resisti com todas as minhas forças, depois me dei por vencido e acreditei. Mas não era a felicidade, era apenas uma trégua. Agora estou outra vez metido em meu destino. E é mais escuro do que antes, muito mais.”

    Curtir

  2. Lindo texto, Balla. O seu. Aprender a lidar com as pausas deve ser mais difícil do que se virar na correria de filhos, casamento, trabalho, Os trechos que você escolheu são poéticos na medida. Se a ideia é fazer ler, valeu. Vou pedir o meu no estante virtual quando terminar de mandar meus textos hoje…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s