Brasil, Comentário, Entrevista, Ficção

O lance de Pelé que virou um livro: Sérgio Rodrigues fala de “O Drible”

O livro começa com a descrição do gol que Pelé não fez contra o Uruguai, na Copa de 1970, um drible sem tocar a bola que deixou o goleiro Mazurkiewicz perdido. São seis páginas que resumem os nove segundos do lance, do passe de Tostão ao chute de Pelé que passa rente à trave direita do adversário, lembrado como se fosse um gol anotado (veja aqui).

13582_ggO escritor Sérgio Rodrigues descreve o lance na abertura de “O Drible” (Companhia das Letras), seu novo romance, já elogiado por Tostão e Juca Kfouri. Autor de um dos blogs sobre literatura mais lidos da internet, o Todo Prosa, Sérgio Rodrigues demorou 20 anos para finalizar o romance – do nascimento da ideia à entrega do texto para a editora.

O futebol é o pano de fundo de “O Drible”. A relação de Murilo, jornalista esportivo da velha guarda, com o filho, Neto, é toda entremeada pelo esporte. Em seus últimos dias, o pai tenta uma reaproximação com o filho, ato que vai revelar mais em profundidade do que esse ensaio.

“O Drible”, então, passeia pela ditadura, o jornalismo esportivo da época de Mario Filho e Nelson Rodrigues, as relações da imprensa com o poder, e desafoga tensões familiares. Há também a história de Peralvo, em tons de realismo fantástico, o jogador que poderia ser maior que Pelé e que conseguia ver o futuro.

Sérgio Rodrigues é autor também de “Elza, A Garota” (Nova Fronteira) e “As Sementes de Flowerville” (Objetiva). A seguir, a entrevista que o escritor deu ao blog. Após a entrevista, leia uma crítica sobre o romance.

A última pergunta é uma referência a Nelson Rodrigues, que dizia que os escritores brasileiros não sabem bater escanteio. Geneton Moraes, entretanto, diz que o cronista implicava com os laterais, não com os escanteios.

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A Copa de 70 tem pelo menos três gols que Pelé não fez e que são históricos. Além do narrado em “O Drible”, há o chute do meio-campo contra a Tchecoslováquia e um chute à queima-roupa após a reposição de bola de Marzukiewicz contra o mesmo Uruguai. Como foi separar o lance a ser narrado?
Não foi uma escolha consciente. Aquele drible de Pelé em Mazurkiewicz já veio junto com a cena de pai e filho diante da TV, pacote completo. De qualquer forma, acredito que seja um lance superior aos outros dois. Não só esteticamente, mas como matéria-prima de mitologia. A decisão consciente veio depois de escrita a cena, quando ficou claro para mim que ali estava a abertura e também o encerramento do romance, além de um dos sentidos do próprio título.

Qual a dificuldade em descrever lances de futebol e um lance como o de Pelé, já bem conhecido e de força visual e mítica?
No caso, não houve dificuldade nenhuma. Foi um prazer do início ao fim brincar com o relógio, promover essa passagem do tempo histórico para o tempo do mito, transformar um lance de nove segundos em algo que se estica por seis páginas e que talvez, fica a insinuação, pudesse não terminar nunca mais. O fato de o lance ser muito conhecido e reverenciado é justamente o que torna possível essa operação.

O lance de Pelé narrado na abertura funciona como analogia para Neto?
O drible de corpo de Pelé no goleiro do Uruguai abre o livro, é retomado no capítulo final e acaba ressoando por todo o romance. Eu queria que a própria narrativa tivesse a forma de um drible.

O Brasil aos poucos vai ampliando sua biblioteca relacionada do futebol. Biografias, antologias de crônicas e ensaios, como o de José Miguel Wisnik e o de Mário Filho, já são bem comuns. Na ficção, ainda são raros os exemplares que têm o futebol como personagem ou pano de fundo, pelo menos. O cinema está tentando romper a barreira. Foram dois “Boleiros”, de Ugo Giorgetti, “Linha de Passe” (Walter Salles Jr) e “O Ano em que meus Pais Saíram de Férias” (Cao Hamburger) nos últimos anos. Por que essa distância das artes em relação ao esporte mais popular do país?
Acredito que haja motivos variados e até opostos. Um certo menosprezo ao futebol, que para alguns seria um tema indigno de verdadeiros intelectuais, deve ser um deles. Um respeito excessivo, uma reverência quase bocó, pode ser outro. Mas acho que se exagera um pouco essa questão do descompasso entre arte e esporte. Como costumo dizer, também não conheço o grande romance italiano de Fórmula 1 ou o grande filme japonês de sumô. Talvez o esporte seja apenas uma narrativa fechada, completa, que a arte tem certa dificuldade de abordar.

Tostão escreveu que não faltam livros de ficção sobre o futebol, faltam, sim, bons livros. Ele insere “O Drible” nessa categoria. Juca Kfouri também elogiou seu livro na TV e no blog. Como é ser avaliado por dois nomes essenciais para o futebol?
Fiquei, naturalmente, feliz com as opiniões de Tostão e Juca, grandes cronistas esportivos, como meu personagem Murilo Filho. Sou um ex-jornalista de esportes, e portanto colega dos dois, e me sinto também contente de ver que a representação que fiz no romance, não só do universo propriamente futebolístico mas da imprensa esportiva, deve ter soado verdadeira para eles. Agora, mais difícil de pôr em palavras é o que senti diante do elogio generoso e entusiasmado do ex-jogador Tostão, craque genial que foi meu ídolo de infância. Aí foi como passar, mais uma vez, da história ao mito. Impossível agradecer o bastante.

Foto: Bel Pedrosa/Divulgação
Foto: Bel Pedrosa/Divulgação

Quais foram as suas inspirações para construir Peralvo? Peralvo é um personagem com perfil comum ao brasileiro. Como transformar esse protótipo num artigo de ficção?
Peralvo nasceu de uma operação comum na criação ficcional, baseada na especulação do “e se…”. Algo assim: superstições e negociações com a dimensão oculta do mundo fazem parte do folclore do futebol no Brasil, mas – e se houvesse um jogador com poderes sobrenaturais mesmo? Logo percebi que, dentro de uma narrativa realista, esse personagem deveria ser apresentado por outro, sem que o narrador se comprometesse, e assim Peralvo foi assumindo uma dimensão alegórica, prototípica, mas também irônica. Será que as coisas se passaram realmente assim?

Amós Oz organizou um livro sobre aberturas de livros em “E A História Começa”, em que escolheu dez livros que o impressionaram pelo começo. Seu livro tem uma forte abertura. Você gosta de livros com começos impactantes? Qual a importância de uma abertura forte na sua avaliação? Você pode citar um livro que admira pela abertura?
Sim, gosto de começos fortes. Em meu blog de literatura, o Todoprosa, criei alguns anos atrás uma seção chamada Começos Inesquecíveis, que fez grande sucesso de público e listou mais de uma centena deles. O de “O Estrangeiro”, de Camus, é um dos meus preferidos. Mas deve-se ter cuidado para não superestimar o papel das aberturas. Não adianta nada começar bem e perder o pulso em seguida.

Seu livro parte de um lance de jogo e avança por assuntos como ditadura, saudosismo, relações familiares, imprensa, por várias décadas. De certa forma, recorta períodos da história do país e apoia seus personagens nesses contextos. E o futebol acompanha todo esse roteiro, da Copa perdida de 1950, ao jogo “chato” de 1958 contra a França e aos superastros como Neymar, desprezado por Murilo. É possível traçar um paralelo entre a história e o futebol? Eles viajam juntos ao longo do tempo?
Sem dúvida. Só se deve ter o cuidado de não exagerar no paralelo. Como diz Murilo Filho, “o futebol pode espelhar a vida, mas a recíproca, por razões que ignoramos, não é verdadeira”.

Você leu muitos livros sobre futebol? Ficção e não ficção? Pode citar alguns títulos da pesquisa para o livro?
Como este foi o meu livro que mais tempo me tomou, quase duas décadas entre a primeira ideia e a entrega à editora, acabei juntando uma bibliografia grande, principalmente de não ficção. Todas essas leituras devem ter ajudado de alguma forma, mas, no fim das contas, quase nada acabou entrando diretamente na minha história. A exceção é “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mario Filho, uma obra-prima sobre os anos de formação do futebol no país, que infelizmente pouca gente leu. Não à toa, meu Murilo é discípulo de Mario.

Qual a sua relação com o futebol?
Sou torcedor do Flamengo, fico completamente maluco desde pequeno com a seleção brasileira, joguei muita pelada na vida. Nunca fui muito bom de bola, embora me esforçasse bastante. Acho que isso acabou me levando a direcionar a relação com a bola para o lado da cabeça: virei jornalista esportivo antes de me dedicar à imprensa cultural, cobri Copa do Mundo (México-1986), li dezenas de livros sobre o tema. Não sabia que, esse tempo todo, estava me preparando para escrever “O Drible”, mas estava.

Você aprendeu a bater escanteio?
Mediocremente. Mas criei um personagem que, segundo juram algumas testemunhas, conseguiu realizar a mítica proeza de bater um escanteio e correr para cabecear.

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A abertura é quase sufocante. No Kobo, são 15 páginas, no papel, seis. Mas a sensação, ao final do capítulo, é que se passaram os nove segundos de duração do lance, tal o força que Sérgio Rodrigues impôs na abertura de “O Drible”.

O romance segue no mesmo tom, tenso, com embates, fugas e dúvidas, tal qual um drible. Murilo Filho, jornalista da velha guarda, discípulo de Mario Filho e que conversava com Nelson Rodrigues em Redações, está para morrer quando chama o filho para conversar em uma pescaria.

Os dois não se falavam havia 26 anos, e a aproximação é incômoda, cheia de dúvidas da parte de Neto. Aos domingos, eles se encontram para pescar, enquanto o pai conta histórias do futebol para escapar dos questionamentos do filho.

As dúvidas só aumentam, e Sérgio Rodrigues conduz o leitor com habilidade, abrindo as portas aos poucos, com precisão cirúrgica. Pai e filho vão se revelando a cada página. Surgem, então, memórias da ditadura, das Copas do Mundo, enquanto os dramas familiares se desnudam como um zagueiro driblado pelo atacante – a mãe de Neto cometeu suicídio, ele é um revisor de livros de autoajuda frustrado que vive à sombra do pai famoso.

Paralelamente, Murilo conta a história de Peralvo, um craque saudado como um novo Pelé na década de 60, mas que não conseguiu jogar a Copa. Com tons mágicos, os capítulos descrevem um jovem que antecipa o futuro, sem saber como consegue.

A leitura começa compulsiva e vai nesse tom até o final. É, sim, um livro sobre futebol, um esporte que não encontra na ficção brasileira espaço como personagem. Mas a força do livro está incrustada na relação familiar, nos segredos embutidos na vida do pai – tão chocantes quanto o gol que Pelé perdeu no jogo contra o Uruguai.

Além de tudo, “O Drible” é muito bem escrito e conduzido. É um dos grandes livros do ano.

“Murilo solta a imagem por três segundos, Tostão conduz a bola, e quando volta a congelá-la Pelé aponta no canto superior direito do quadro e você sente um tranco na barriga como se a velocidade do mundo desse de repente um arranque, alguém ligando um acelerador de partículas.”

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