Argentina, Comentário, Crônicas, El Salvador, Ficção, Uruguai

O outro lado da América Latina

Não dá para dizer que a literatura latino-americana é desprezada no Brasil. Afinal, as livrarias estão encharcadas de nomes como Borges, Gabo, Llosa, Paz, Sábato, Casares, Benedetti, Bolaños, Neruda, Onetti e Cortázar. Mas talvez falte algo além dos nomes consagrados.

Já escrevi sobre o chileno José Donoso e o guatemalteco Rodrigo Rey Rosa, nomes que ficam na borda. Uma coleção chegou recentemente para abrir mais portas e mostrar nomes contemporâneos e alguns consagrados mas sem espaço no Brasil. A Otra Língua, editada pela Rocco e coordenada por escritor Joca Reiners Terron, promete ser essa plataforma – pelos títulos já lançados, será uma lufada de frescor no mercado, baseada na ousadia. A curadoria é consistente e as traduções são bem acabadas. Bibliografias pouco conhecidas, como de El Salvador, ganham chance, assim como um outro lado da ultraexplorada ficção argentina.

O blog já leu os quatro títulos lançados. Abaixo, um breve comentário de cada um deles.

42136234“Águas-Fortes Cariocas”, de Roberto Arlt. Reunião de crônicas do escritor argentino publicadas no jornal “El Mundo”. Arlt viajou para o Rio de Janeiro em 1930 para fazer uma espécie de diário de viagem. Raro observador, Arlt é ácido em suas comparações com Buenos Aires – no mesmo tom que John dos Passos adotou em “O Brasil em Movimento”, tratado neste post. Critica o comportamento, o calor, o governo, mas num texto amparado no bom humor. No final, há três pequenas autobiografias e uma entrevista com o autor. Não é seu melhor trabalho e a edição não é a mais indicada. A Iluminuras lançou recentemente uma coletânea com essas águas-fortes mais uma seleção portenha, que amplia o horizonte para quem quer conhecer o Arlt cronista. Mas, para ler o seu melhor, vai ser necessário ir ao sebo para achar, da mesma Iluminuras, o volume “Os Sete Loucos e Os Lança-Chamas”.

42136233“Como Me Tornei Freira”, de César Aira. Além da novela que título ao volume, a seleção traz “A Costureira e o Vento”. O escritor argentino prolíferos da atualidade – escreve dois romances por ano – são mais de 60, desde a sua estreia, em 1975. “Como Me Tornei Freira” é um dos seus melhores trabalhos. Conta a história de uma menina de 6 anos, César Aira, que vê o pai assassinar um sorveteiro. A cena é de um realismo brutal, sem escapar pela violência. Ao longo do texto, a menina pode ser um menino, sem Aira explique ou abra caminhos para a compreensão. No prefácio, Sérgio Sant’Anna diz: “Não encerremos Aira em um rótulo, digamos, sim, que ele joga um jogo de possibilidades infinitas”. Este então é o volume mais provocador e instigante da coleção até agora.

42120686“Deixa Comigo”, de Mario Levrero. O uruguaio é admirado por César Aira e Enrique Vila-Matas. Neste lançamento, um escritor decadente de 50 anos, acima do peso, fumante e recém-separado, recebe um ultimato do seu editor: se conseguir encontrar Juan Pérez, um desconhecido que mandou um manuscrito para publicação, ele tem outra chance. Ele então embarca para Penurias, um vilarejo no interior do Uruguai. A narrativa curta vai trafegar entre ficção e realidade e pensar sobre a condição do escritor.

 

 

42120691“Asco”, de Horacio Castellanos Moya. Tem como subtítulo “Thomas Bernhard em San Salvador”. O escritor nascido em Honduras se fixou em El Salvador desde a infância. Neste livro, ele vai refletir sobre seu país por meio Edgardo Vega, professor universitário que se exilou voluntariamente no Canadá e volta para El Salvador para o enterro de sua mãe. Encontra com seu amigo Moya, com quem vai conversar e destilar rancores, uma forma de romper laços com seu país natal.

 

 

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Os livros até agora também receberam versão em formato digital. Estão programados para sair este ano “Os Lemmings e Outros”, reunião de contos do argentino Fabián Casas, e “O Corpo em que Nasci”, romance da mexicana Guadalupe Nettel.

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