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“Dava gosto o prazer e o sofrimento”: nos 100 anos de Vinicius, uma viagem ao seu restaurante de BH

vinicius-de-moraesO calendário das efemérides lembra no dia 19 de outubro o centenário de nascimento de Vinicius de Moraes. Jornais, revistas e internet tentam dar conta de lembrar do poeta, com especiais. A editora Companhia das Letras, que detém o catálogo de Vinicius, prepara mimos para os leitores, livrarias promovem suas obras.

1775_GO blog, para celebrar Vinicius, optou por um recorte da vida do bon vivant. A repórter de gastronomia de “O Tempo”, Lygia Calil, fez uma matéria inspirada no livro recém-lançado “Pois Sou Um Bom Cozinheiro” (Companhia das Letras). A obra traz receitas próprias, histórias relacionadas a comida, poesias, cartas e uma boa seleção de fotos.

A repórter conversou com o dono do restaurante que Vinicius frequentava quando viajava para Belo Horizonte. Falou também com o herdeiro da pousada de Ouro Preto que servia de resguardo para o poeta. Tirou histórias e aqueceu o centenário.

A seguir, o texto publicado na edição de 13 de outubro. O link da reportagem original segue aqui. No final, deixo mais links sobre o especial publicado pelo jornal, no caderno “Magazine” e no site.

*****

Tutuzinho com torresmo. Galinha com uma rica, e gostosa, farofinha. Lombinho de porco bem tostadinho. Pelo tom caipira e o inconfundível diminutivo, essas receitas bem que poderiam estar em um caderno de receitas de uma veterana cozinheira mineira. Mas não: estão na seleção dos pratos preferidos de Vinicius de Moraes, elencada no recém-lançado “Pois Sou um Bom Cozinheiro”.

O nome do livro veio do poema “Autorretrato”, em que figuram os versos: “Ajudo bastante em casa / Pois sou um bom cozinheiro / Moro em Paris, mas não há nada / Como o Rio de Janeiro para me fazer feliz”.

O livro é um dos eventos que fazem parte das comemorações do centenário do nascimento do poeta, celebrado em 19 de outubro.

“Pois Sou Um Bom Cozinheiro” foi idealizado pela filha de Vinicius, Luciana de Moraes (1956-2011), ao tentar reproduzir as ceias de Natal na casa dos avós paternos. Depois da morte de Luciana, Edith Gonçalves, sua companheira por 23 anos, assumiu o projeto ao lado da chef e produtora gastronômica Daniela Narciso.

Responsáveis pela pesquisa e organização, elas debulharam textos, poemas, letras e correspondências com a intenção de remontar o cenário gastronômico da vida de Vinicius por meio de receitas.

Além de explicitar o apreço do poeta pelo diminutivo, a obra mostra que, para ele, celebrar a vida incluía comer bem e em boa companhia. Ainda que tivesse acesso a itens refinados no exterior, como trufas e caviar, os preparos mais simples e sertanejos o atraíam. Talvez por isso ele gostasse tanto da cozinha e da gente de Minas Gerais. A primeira vez em que esteve no Estado foi em 1942, chefiando uma delegação de escritores. Aqui, ele conheceu intelectuais como Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos, com os quais fez amizade.

Em Belo Horizonte, na década de 70, gostava de frequentar o restaurante Tavares, hoje em Nova Lima, mas que na época ficava no centro da cidade, na rua Santa Catarina. Especializado em carnes de caças, era por lá que ele gostava de almoçar, com um inseparável copo de uísque em uma mão e um cigarro na outra. Quem o recebia era Manoel Tavares, que ainda hoje comanda o negócio.

Manoel Tavares, que recebia Vinicius em seu restaurante | Foto: Ricardo Mallaco/O Tempo
Manoel Tavares, que recebia Vinicius em seu restaurante | Foto: Ricardo Mallaco/O Tempo

Tavares recorda a figura amável e elegante do poeta. “Ele conversava manso, sem afetação. Uma coisa que nunca vou esquecer é do cheiro de talco. Era como se ele tivesse acabado de sair do chuveiro. Chegava ao meio-dia e estava sempre muito limpo, embora viesse caminhando como um simples mortal no meio da poeira. O cabelo era um pouco ralo, colado na cabeça, semi-engomado. Naquela época, não tinha esse negócio de tietagem. Todo mundo sabia quem ele era, mas ninguém ficava importunando”, relembra.

Atrevido, Vinicius também frequentava a cozinha do restaurante, para desespero e fúria de Ivana, irmã de Tavares, que comandava a cozinha. Ele relata as brigas entre os dois: “Quando ele não pedia um prato do cardápio, vinha preparar o seu filé com fritas, atrapalhando todo o andamento da cozinha. Minha irmã ficava louca de raiva e tentava expulsá-lo. Aí ele trazia um copo de uísque, bem cheio, chegava perto dela e dizia ‘Ivaninha, um uisquinho’. Ele sorria, ela cedia”, diz.

Vinicius e seu copo de uísque
Vinicius e seu copo de uísque

A estratégia do uísque também era usada com os garçons da casa, a quem Vinicius subornava com boas doses para apressar os pedidos. “Quando ele vinha, todo mundo acabava meio bêbado. Ainda bem que nenhum outro cliente percebia”, recorda.

Vinicius apresentou o restaurante Tavares ao amigo Pablo Neruda, que também compartilhava com o poetinha o gosto por pimentas fortes. Foi lá que Neruda conheceu o molho Fogo do Inferno, feito com pimenta malagueta, para acompanhar as fritas e um tatu que ele gostava. A ocasião rendeu o poema “Viagem Gastronômica a Belo Horizonte”.

Viagem Gastronômica a Belo Horizonte

Em Bel’zonte
Levei-te ao restaurante do Tavares
Para onde, como sói
Havia convidado previamente
Esse querido Elói
Nunca havias provado
Capivara, tatu, paca, veado
A boa caça brasileira
Acompanhada de feijão tropeiro
E linguiça e torresmo bem torrado
E um molho de pimenta
Perfeitamente ignaro

(“Fogo do Inferno”, chama-se…)

Que – eu bem te avisei!
Incendiou-te as vísceras e a cara
Isso depois de umas “capirinhas”
E, durante, cerveja bem gelada.
Dava gosto o prazer e o sofrimento
Com que comias e com que suavas.

*****

Ouro Preto era o refúgio escolhido para superar fins de casamentos

Na cidade histórica de Ouro Preto, Vinicius sempre se hospedava no quarto número 1 do Solar Pouso do Chico Rei, com vista para as montanhas – quarto que hoje tem o nome do poeta. Era lá que ele gostava de curtir a fossa do fim de alguns de seus casamentos e chegou a morar por meses, durante a ditadura militar.

Da pousada nasceram dois de seus poemas, “Visita a Ouro Preto” e “Poesia do Pouso”, este dedicado à dinamarquesa Lilli Ebba Henriette Correia de Araújo, dona do lugar, que se tornou sua amiga e confidente.

Hoje, o negócio é administrado pelo neto dela, Ricardo Correia de Araújo, que ainda tem muitas lembranças de Vinicius no local.

Além do carinho de Lilli, conhecida pela gentileza com que tratava seus hóspedes, Vinicius aproveitava também os quitutes que a dinamarquesa preparava especialmente para ele. O bolo de carne era um dos pratos preferidos, assim como os eventuais caviares de ovas de robalo e outros peixes nobres para acompanhar o onipresente uísque, além de uma eventual caipirinha.

As aventuras com as mulheres de Vinicius também marcaram a história da pousada. Ricardo conta que, uma vez, o poeta levou para Ouro Preto uma namorada nova, mas sua sétima mulher, Gesse, foi atrás dele. “Ao ser avisado pela minha avó da presença da mulher, que era uma baiana muito da arretada, Vinicius escapou por uma passagem secreta e fugiu para Belo Horizonte”, diz.

O artista plástico Carlos Bracher e Vinicius na pousada Chico Rei, em Ouro Preto | Foto: Arquivo pessoal
O artista plástico Carlos Bracher e Vinicius na pousada Chico Rei, em Ouro Preto | Foto: Arquivo pessoal

Já o artista plástico Carlos Bracher, um dos melhores amigos do poeta na cidade histórica, relembra de uma passagem que ilustra bem os rompantes amorosos do poeta. Depois de uma noitada em uma boate de Ouro Preto, já ao amanhecer, Vinicius chamou o então jovem pintor para viajar. Para surpresa dele, o poeta entrou no seu Karmann Ghia e foi até Montevidéu em busca de uma namorada. “Isso me fez entender que o amor compensa”, relembra o artista.

Poesia do pouso
para Lillylinda

Amiga, dizer nem ouso
De certa coisa que sei
Desde então acho-me em gozo
Das coisas que sempre amei
Lá dentro tudo é formoso
Toda madeira é de lei
Lá dentro encontrei repouso
Lá dentro me reencontrei
Amiga, só quero pouso
No Pouso do Chico Rei!
Com carinho total do
Vinicius de Moraes

Visita a Ouro Preto

Em Ouro Preto
Mostrei-te o Pouso do Chico Rei
Onde a amiga Lilli
Deu-te uísque a beber
Depois fomos comer lá no Pilão
Galinha ao molho pardo

*****

Para acompanhar os textos, Thiago Pereira conversou com parceiras e amigos de Vinicius. A reportagem está no link.

Para completar, “O Tempo” publicou um hotsite para comemorar o aniversário. O especial tem reportagem de Liliane Pelegrini, Luiza de Sá, Thiago Pereira e Lygia Calil. Vale a visita.

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6 thoughts on ““Dava gosto o prazer e o sofrimento”: nos 100 anos de Vinicius, uma viagem ao seu restaurante de BH”

  1. Farei com prazer, embora o texto sobre Portugal tenha acabado de nascer e já esteja se preparando para vir à luz na região do Paraíso. Por sinal, acho que vocês iriam adorar a cidade. É belíssima e com pessoas que fazem a gente querer bem. E a comida…

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      1. Mas eu já colaborei recentemente com aquele texto sobre os tais acasalamentos. De qualquer modo, farei um texto especial para o blog assim que puder. Qual pode ser o tema?

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      2. Eu tinha pensado num texto exclusivo para o blog. O tema é livre, desde que tenha alguma relação com literatura – autores, livros, versos, trechos. Pode ser sobre sua viagem a Portugal, por exemplo. Viagens, comida, vinhos, futebol, fique à vontade.

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