Colaboração, Crônica

Uma feira avassaladora

A jornalista Michele Borges da Costa esteve na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, e, a convite do blog, escreveu uma crônica sobre o maior evento literário do mundo.

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Um ajuntamento de jornalistas gringos e brasileiros, de leitores gringos e brasileiros, de colegas gringos e brasileiros ouvia atento Ruy Castro falar sobre liberdade de expressão. Um ajuntamento de jornalistas gringos e brasileiros, de leitores gringos e brasileiros, de colegas gringos e brasileiros ouvia atento Paulo Lins falar sobre a tradução de seus livros para o alemão. Um ajuntamento de jornalistas gringos e brasileiros, de leitores gringos e brasileiros, de colegas gringos e brasileiros ouvia atento Christiane F. falar sobre sua segunda autobiografia. Tudo ao mesmo tempo. Tudo no mesmo endereço.

Fazer escolhas diante das dimensões gigantescas e dos números superlativos que dão à Feira do Livro de Frankfurt o título de maior do mundo ou a de mais importante exigiu dedicação. E fôlego. E desapego. Espalhada em oito pavilhões, seus labirintos de estandes deram conta de compartimentar o universo. Milhões de livros da Albânia, da Índia, da Turquia, da Argentina, do México, de Israel e de qualquer país que apareça no mapa. Como disse Antonio Callado ao entrar na Buchmesse pela primeira vez: avassalador.

Os corredores da Feira de Frankfurt | Foto: Michele Borges da Costa
Os corredores da Feira de Frankfurt | Foto: Michele Borges da Costa
Mesmo ficando só na programação oficial brasileira e suas questões, a encrenca já foi grande. No segundo dia do evento, entre descobrir o que realmente levou Ziraldo para o hospital, verificar a reação da audiência aos preparos do chef mineiro, saber como João Paulo Cuenca se posicionaria diante das retaliações a Luiz Ruffato e seu discurso sem economias, percorri mais de 9 km, dei exatos 14.242 passos.
Não dava para ser menos. Por seis dias, autores de diferentes idades e lugares, de prosa, poesia, ensaio marchavam em filas das 10h às 18h30. Liam trechos de livros, trechos de contos, produziam manifestos, derramavam versos, posavam para fotos, respondiam o que podiam, desconstruíam a imagem do Brasil de Paulo Coelho e, por quase todo o tempo, faziam e debatiam política.
E o interesse acompanhou o empenho. A banca que vendia versões em português e traduzidas não ficava vazia. O condomínio de redes onde se podia ouvir MPB era disputado a tapa. Apresentações de nomes como Bernardo Carvalho tinham gente se espalhando no chão na falta de cadeiras disponíveis. Foram 60 mil visitantes num esforço para entender o Brasil.
Ao final, garantiram que a visão de um país colorido, bom para passar férias e onde as pessoas não trabalham foi definitivamente destruída pelas versões que apareceram através das exibições literárias. É bem provável que o mundo passe a ler além de Jorge Amado e Clarice Lispector. Mas volto de Frankfurt ainda torcendo que o brasileiro ultrapasse os quatro livros por ano.
Michele Borges da Costa é secretária de Redação do jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte
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