Biografias/Perfis, Brasil, Entrevista

“O poder no Brasil nunca quis que a sua história fosse contada”

Escrever biografias no Brasil parece ser um grande negócio. Pelo menos é o que declara o grupo Procure Saber, capitaneado por Paula Lavigne e composto por nomes como Roberto Carlos, Chico Buarque. Caetano Veloso, Djavan e Erasmo Carlos, além de adeptos declarados, como Jorge Mautner.

Entre o discurso de preservar o direito à privacidade de figuras públicas e o direito à informação, surgiu no meio da bandeira fincada a questão financeira: biógrafos ganham rios de dinheiro e deveriam pagar uma porcentagem aos biografados.

Ruy Castro, autor de biografias de Garrincha e Carmen Miranda, disse que, se for para trabalhar sossegado, aceita pagar uma porcentagem. Laurentino Gomes, na Feira de Frankfurt, deu declarações fortes contra a proposta de censura prévia.

Enquanto isso, corre no Congresso proposta que elimina a necessidade de aprovação por parte do biografado, de familiares e herdeiros para que um biografia seja produzida e lançada. Um grupo de intelectuais, biógrafos e jornalistas luta para acabar com as atuais regras – Ruy Castro, Paulo César Araújo (autor da biografia recolhida de Roberto Carlos), Bóris Fausto, Cristovão Tezza, Ferreira Gullar e Carlos Heitor Cony, entre outros.

Por outro lado, o Procure Saber força o lobby nos corredores para derrubar a proposta e manter a atual lei.

Joaquim Barbosa, presidente do STF, disse ser a favor da liberdade de produção de biografias.

Autor da biografia “Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo” (Companhia das Letras), Mário Magalhães conversou com o blog sobre a polêmica. Jornalista, foi ombudsman da “Folha” (na opinião do blog, o melhor desde que o jornal instituiu o cargo) e ganhou inúmeros prêmios de reportagem.

Magalhães fala sobre a proposta de se manter a lei atual – “É assim que se constrói uma nação, sem direito à memória?” -, a decepção com os nomes envolvidos no Procure Saber e diz se ficou rico após escrever a biografia de Marighella: “Fiquei bem mais pobre do que era em 2003, quando comecei a encarar essa empreitada da qual muito me orgulho e não me arrependo”.

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A censura a biografias é uma questão artística, política ou financeira? A defesa do Procure Saber se baseia no “direito à verdade”, apesar de o livro sobre Roberto Carlos não ter sido censurado por causa de mentiras. Por outro lado, Djavan escreveu que o biografado tem que receber uma porcentagem das vendas. Você acha que o discurso do Procure Saber está claro?
O grupo Procure Saber se bate por uma política obscurantista, de lesa-história. Se, como quer esse movimento, a legislação não mudar, o Brasil passará a publicar exclusivamente biografias chapas-brancas, louvando os biografados. Essa censura constitui uma tragédia antidemocrática, viola o direito de informar e ser informado, consagra o monopólio da verdade. Como os biografados ou seus parentes têm o poder de submeter as biografias a censura prévia, até serial killer vai virar herói, impedindo que uma biografia não autorizada conte os seus crimes. Não haverá biografia de político corrupto. Hoje, a família do antigo ditador Emilio Garrastazu Médici tem o poder legal, com base no Código Civil, de proibir uma biografia que conte as atrocidades patrocinadas pelo governo do general. É assim que se constrói uma nação, sem direito à memória?

Em entrevista a “O Globo”, Jon Lee Anderson (autor da biografia de Che Guevara) disse que o Brasil, com a lei atual e o apoio de artistas, se aproxima de países como Rússia, Irã e China. Essa comparação é válida?
Não sei. O que eu sei é que o Brasil se tornou a única grande nação democrática em que a lei exige que se peça autorização ao biografado. Esse procedimento constitui censura prévia. Quem gosta de censura é ditadura.

Como você avalia a adesão de nomes que foram vítimas da censura e da ditadura?
Com surpresa. Sou fã de Caetano, Chico, Gil, todos gênios da raça.

 Fernando Morais (Assis Chateubriand, Paulo Coelho), em reportagem da Folha, perguntou se Chico estava no grupo. Regina Echeverria (Elis Regina, Cazuza, Gonzaguinha) mostrou espanto: “Acho impossível! O Chico?”. O nome de Chico Buarque está causando mais espanto que o de Caetano, Gil, Milton. Por que?Minha surpresa é com quase todos, à exceção do Roberto Carlos, mais previsível, de quem também sou fã.

O grupo foi bater na porta do senador Renan Calheiros para pedir ajuda. Esse movimento mancha a biografia não escrita desses nomes? Como relacionar esse movimento com o passado dos artistas, com sua obra?
Cada um cuida da própria biografia como quer. O inaceitável são figuras públicas quererem impedir que se conte sua história, que tem caráter público. Espero que um dia, quem sabe em uma biografia não autorizada, venhamos a saber por que essa virada de comportamento ocorreu.

Benjamin Moser (Clarice Lispector) escreveu uma dura carta a Caetano na Folha. Ironizou a questão financeira e pediu para o músico deixar o lado do coronelismo. O Brasil ainda encarna os coronéis? O que esse movimento sugere?
O poder no Brasil nunca quis que a sua história fosse contada. Pelo menos não livremente. Os poderosos querem hagiografias, ou seja, relatos louvando seus feitos. Aí não se trata mais de jornalismo independente ou reportagem biográfica, mas de propaganda.

Você negociou com família de Marighella para escrever a biografia? Como foi esse processo?
A biografia “Marighella” me tomou nove anos de trabalho, dos quais cinco anos e nove meses em dedicação exclusiva. Entrevistei 256 pessoas. Tive acesso a cerca de 70 mil páginas de documentos oriundos de 32 arquivos públicos e privados de Brasil, Paraguai, Estados Unidos, República Tcheca e Rússia. A bibliografia alcançou 500 títulos. Apesar de todo esse esforço, o livro só foi publicado graças ao alto espírito público da família Marighella, em particular de Carlos Augusto Marighella, filho do meu personagem, e de Clara Charf, viúva. Pela lei, eles tinham poder para vetar a biografia. Como Carlos Augusto e dona Clara são democráticos e tolerantes, nem eu pedi autorização para fazer o livro, nem eles pediram para ler os originais. O que não os impediu de, generosamente, apoiar com entusiasmo o meu projeto, confiando no meu trabalho. Tenho em relação a eles um sentimento de gratidão eterna. Escrevi, porém, uma biografia não autorizada, na qual Carlos Marighella tem grandes e pequenos momentos, como qualquer ser humano.

Você, como autor de uma biografia de sucesso, ficou rico após escrever Marighella?
A biografia já está na quarta reimpressão, com 30 mil exemplares impressos. O Ator Wagner Moura e a produtora O2, do cineasta Fernando Meirelles, adquiriram os direitos de adaptação para o cinema. Lembro que eu havia deixado o jornal em que trabalhava e ganhava muito bem para me dedicar somente ao livro. Somando o que recebi pelos exemplares vendidos e receberei pela cessão da biografia ao cinema, o valor total é de 15% do que eu teria embolsado em salários caso tivesse permanecido no jornal. Ou seja, de cada 100 reais eu abri mão voluntariamente de 85. É claro que não enriqueci. Pelo contrário, fiquei bem mais pobre do que era em 2003, quando comecei a encarar essa empreitada da qual muito me orgulho e não me arrependo.

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Questionado pelo blog se ainda escreveria uma nova biografia, Mário Magalhães disse que a resposta estava em um post de seu blog. O texto, publicado no dia 11/10, talvez seja o texto definitivo sobre a polêmica.

“O desprezo pelo trabalho alheio é ainda mais escrachado na “sugestão” da empresária Paula Lavigne, voz mais estridente do lobby pró-censura prévia (aqui): “Se alguém quiser escrever uma biografia e publicá-la na internet sem cobrar, tudo bem. O problema é lucrar com isso”.

Tal trabalho escravo, inconstitucional desde o século 19, fulminaria biografias não autorizadas.

Reiterando: biografia escrita por repórter constitui reportagem, que é um gênero do jornalismo. Reportagens de fôlego, como biografias, exigem três condições: a) domínio técnico; b) disposição editorial; c) condições materiais. Se não houver remuneração, proveniente da venda de livros, não há como se dedicar a uma história de vida. A não ser que o autor seja milionário… ou louco.”
(…)
Para quem amargou tantos sacrifícios, soa ofensiva a acusação, desfraldada ou sutil, de que só se faz biografia para enricar. Mas isso é o de menos. Desgraça, como imaginou o compositor Alceu Valença, será montar no futuro uma nova comissão da verdade para revelar o que poderiam ter contado biografias banidas.

Da minha parte, caríssimo Djavan, seguirei em frente com minha sina de biógrafo de uma biografia só e meu valente Citroën C3, ano 2007.

Desisto de biografias, enquanto perdurarem os ameaçadores garrotes da censura. Maluquice como a que eu cometi, somente uma vez na vida, e olhe lá.”

“Marighella” foi minha primeira e, se nada mudar, última biografia.

A íntegra do texto está aqui.

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