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Dos arquivos: Vittorini em três atos

sardenhaNão me lembro de um livro que eu tenha começado sem ter passado antes pela orelha. Sou leitor de orelha também, e não consegui ficar imune ao texto de Leonardo Fróes para “Sardenha como uma Infância” (Cosac Naify), de Elio Vittorini.

Assim ele começa: “É difícil não mergular com interesse num livro que começa afirmando: ‘Eu sei o que é ser feliz na vida’. Mas que ninguém se iluda na esperança de ter aqui uma chave para esse estado que enfim todos almejam”.

Não resisti. O livro chegou em casa e li em uma noite apenas. “Sardenha” faz parte da coleção Companheiro de Viagem, da CosacNaify, que já lançou “As Vozes de Marrakech” (Elias Canetti), “Marca d’Água” (Joseph Brodsky), “O Sequestrado de Veneza” (Sartre) e “A Viagem do Oriente” (Le Corbusier).

Os trechos falam melhor do que eu. É uma viagem à infância, de qualquer leitor. Vittorini consegue colocar cheiros e texturas a cada página, nos pequenos capítulos das pouco mais de 100 páginas, que se transformam em minicontos. É uma obra de juventude, mas recheada de verdade.

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“Eu sei o que é ser feliz na vida – e a dádiva da existência, o gosto da hora que passa e das coisas que estão em torno, ainda que imóveis, a dádiva de amá-las, as coisas, fumando, e uma mulher dentro delas.”

“E não sei o que se passa em meu rosto nessas minhas felicidades, quando sinto que se está tão bem na vida: não sei se uma doçura sonolenta ou quem sabe um sorriso.”

“Gosto desta realidade de viagem, com estes amigos, este chiado dos bancos, este escuro lá fora, e uma cama de hotel esta noite, e quero isso enquanto dure. Nos campos nenhuma luz se acende.”

“Afundada na planície, tenho a impressão de tê-la inteira – Oristano – à altura de minha fronte, telhados e telhados, assim que ponho a cabeça para fora do carro e desço. Devem ser umas onze, antes do meio-dia, em pleno sol. Ao longe, os chacos calcinados cintilam – e há sono ali! – até o mar; penso no tédio daquelas orlas, no mugido daquelas águas quando incham com as chuvas.”

“Agora, malgrado tudo, quando, sentados numa pedra, meditam, sonolentos, ocupados com coisa nenhuma, eles estão na vida. Os outros que lutam, não, pois se deixam ocupar inteiramente em suas consciências pela luta e pelo movimento, sem conhecer outro prazer que não o da mercearia abarrotada. O segredo estaria em lutar pela existência, mas sem se deixar ocupar, por dentro, pela luta, pelo idealismo dela… De resto, há muito mais vida verdadeira em uma ruminação inerte. O ativismo como fim em si mesmo sempre me pareceu coisa de moscas, que mal param de voar ao redor, pousam e já começam a coçar a cabeça ou a afiar as patas dianteiras.”

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homensVittorini escreveu o livro aos 24 anos, após fazer uma viagem para a Sardenha com uma companhia turística, acompanhado de vários outros. A ideia era escrever algo para uma revista literária. Li outros dois livros do italiano, “Conversa na Sicília” e “Homens e não” (ambos Cosac Naify). Sua capacidade de observar e escrever diálogos encanta.

Como este trecho de “Homens e Não”:

“Não, na verdade. Você está na cadeira, veio, e é simples. Não é simples para você?”
“Claro que é simples.”
“Se você fosse uma outra pessoa seria simples para todos os dois. Poderíamos ter todos os dois o que é mais simples. E até ir embora de Milão seria simples.”
“Não é simples ir embora de Milão?”
“Para mim? Para mim, não. Para você seria simples ter o que quer, e é simples também não poder ter. Ficar sentada toda a noite numa cadeira para você também é simples.”
“É simplíssimo.”
“Mas para mim não é simples nem ao menos esperar.”
“Por que não?”
“Não é, Lorena. Não posso mais esperar.”
“Não espere se não pode.”
“De fato, não espero. Espero? Não espero. Parece que estou esperando?”
“Não sei”, Lorena disse. “Tinha que esperar?”
“Não se tratava senão de esperar. Não era simples que eu esperasse?”
“Era simples.”
“Era muito simples. O mesmo era resistir. Ver um homem se perder, outros e outros se perderem, não poder nunca ajudá-los, e todavia não se perder, resistir. Era simples e fiz. Não fiz?”
“Não há outra coisa a fazer.”
“Não há outra coisa a fazer? Não há alguma coisa mais simples que se possa fazer?”
“Por ora não há outra coisa.”
“E para você basta que não haja outra coisa para continuar? Pode continuar?”
“Posso continuar.”
“Continuar sempre também, e sempre resistir?”

Alguns autores procuram no simplicidade o caminho para contar suas histórias. Sem rebuscar seus textos, tateiam soluções que num primeiro momento podem até parecer simples, básicas, mas que se transformam em grande literatura.

10594gÉ o caso de “Conversa na Sicília”. Escrito às portas da 2ª Guerra Mundial, o romance abriu caminho para nomes como Primo Levi, Italo Calvino, Pavese e Moravia. Antifascista e escritor engajado, Vittorini não transfere para seu texto a postura política – pelo menos não explicitamente.

Busca nas relações pessoais, no retrato humano que faz da Itália a razão de sua escrita.

Neste romance, Silvestro retorna à sua natal Sicília, após a morte do pai. É a deixa para sermos apresentados a personagens quase folclóricos, como os policiais Com-Bigodes e Sem-Bigodes, mulheres viúvas com desejos à flor da pele e o mítico Grande Lombardo.

O livro é quase todo tomado pela conversa de Silvestro com sua mãe, que o leva para acompanhá-la nas suas visitas às moradoras do vilarejo. Presa ao passado, sem pudor, os diálogos com seu filho não escondem a ingenuidade das insinuações sexuais para com as mulheres anfitriãs, quase a provocar o desejo em Silvestro.

Esses diálogos são fluentes, a conduzir o leitor pelas vielas do local, num ritmo ditado pelo autor, sem pressa, mas condizente com o andar da mãe e do filho. Retrata o momento italiano, especialmente o siciliano, de forma pungente.

O volume vem recheado de fotos da Sicília feitas por Luigi Crocenzi especialmente para uma edição ilustrada de “Conversas” de 1953. Fotos que contam sua história particular.

Os três livros de Vittorini são uma lufada de prazer, uma leitura que cava sensações além do olhar e do tato. O leitor busca suas lembranças como num mergulho afoito, sem medo do que vai encontrar nesse impulso. A leitura é recompensadora.

CONVERSAWEB
A Sicília de Luigi Crocenzi
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2 thoughts on “Dos arquivos: Vittorini em três atos”

  1. O conceito de felicidade parece se encerrar nesse trecho que você escolheu: “‘Eu sei o que é ser feliz na vida’. Mas que ninguém se iluda na esperança de ter aqui uma chave para esse estado que enfim todos almejam”. Creio que se trata de algo muito particular, e todos nós temos os momentos em que desejamos que eles nunca acabassem.
    E parece não haver uma fórmula mágica que nos avise sobre o fenômeno. Cada um deve perceber e identificar a felicidade em nosso dia a dia – já associei a felicidade o momento em que abro uma garrafa de vinho, porque sei que estou em casa, por ter uma boa música ao fundo, por estar fora do cotidiano de São Paulo.
    Grato pelas indicações.

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    1. Buscar a felicidade apenas nos atos grandiosos vai gerar, em algum momento, tristeza. Acho que a felicidade deve ser buscada nos pequenos momentos, principalmente. Como nos que você citou, abrir uma garrafa de vinho, ouvir uma boa música, viajar. Acredito que a felicidade esteja plantada nesses momentos cotidianos, que nos preenche sem, muitas vezes, percebermos.
      Vittorini é um grande autor e sabe buscar essas miudezas, Antonio.

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