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Dos arquivos: Dois romances em busca do equilíbrio

Nietzsche, em seu prólogo para “Humano, Demasiado Humano” (Companhia das Letras), questiona o que os poetas e toda a arte no mundo fizeram a não ser falsificar e criar poeticamente tudo o que ele precisava. E nada mais urgente do que comprovar as fraquezas humanas, seus desejos e desesperos, um tesouro escondido nas entranhas, de uma forma tão intensa e direta, como se fosse uma conversa interior.

amor-etc-julian-barnesÉ o que faz o inglês Julian Barnes em “Amor Etc” (Rocco, 2000). O autor recupera a trama de “Em Tom de Conversa” (Rocco, 1997) e o trio de personagens Stuart, Oliver e Gillian para contar o que aconteceu dez anos depois. Por meio de monólogos, uma espécie de conversa com o leitor, Barnes relata a história de pessoas comuns, vítimas de um fato corriqueiro.

Ler “Amor Etc”, sem ter passado por “Em Tom de Conversa”, não provoca prejuízo. A trama se explica, sem necessidade de referências anteriores.

em-tom-de-conversa-julian-barnesNo primeiro livro, Gillian deixa Stuart logo após a lua-de-mel para ficar com seu melhor amigo, Oliver. Nessa revisitação, Barnes desenrola a história com a mesma opção narrativa da primeira parte. O autor aproveita a “intimidade” criada com o leitor para expor o que de melhor e pior há em cada um de seus personagens, como se cada um deles quisesse conquistar seu interlocutor, contando sua versão dos fatos – a epígrafe de “Em Tom da Conversa”, um provérbio russo, já dava o mote: “Ele mente como uma testemunha ocular”. A tensão é tanta que o leitor se sente compelido a aceitar todas as explicações do trio central, que vez por outra parece implorar por compreensão.

Stuart, logo após a separação, deixa o emprego de bancário e viaja para os Estados Unidos, onde desenvolve uma vitoriosa carreira com restaurantes e uma empresa de alimentos orgânicos. Casou e se separou. Deixa seu jeito infantil, que permeou todo o primeiro livro, e volta à Inglaterra maduro, rico e em forma. O contraste é gritante ao reencontrar o casal. Oliver não mudou em nada, continua verborrágico, pedante ao falar em francês, latim e espanhol, vive em depressão crônica e está desempregado. A idéia de vender roteiros para o cinema não vingou. Gillian é quem sustenta a casa e suas duas filhas, com o trabalho de restauradora de quadros. Vai ser até a metade do livro o ponto de equilíbrio entre os dois homens de sua vida.

É a cena perfeita, pelo menos na imaginação de Stuart, para que ele possa entrar novamente na vida dos dois amigos. O agora bem-sucedido empresário começa a se envolver com a família quase como um psicopata: cuida das crianças, encontra uma nova casa, arruma um emprego para Oliver em sua empresa, um novo ateliê para Gillian.

A reação de Stuart vai encontrar paralelo e amparo em Antoine Roquentin, o alter-ego de Jean-Paul Sartre em “A Náusea” (Nova Fronteira): “Já não pode fazer amor? Mas fez amor. Ter feito amor é muito melhor do que fazê-lo ainda: com a distância, julga-se, compara-se e reflete-se. E quanto a esse terrível rosto de cadáver, para poder suportar sua imagem nos espelhos, esforça-se acreditar que as lições da experiência estão gravadas nele”. Para Barnes, a visão do espelho é assustadora. O personagem sartreano, que nesse trecho já começava a demonstrar toda sua repulsa com o conformismo, serve como ponto de partida para uma série de interrogações que “Amor Etc” deixa no ar. Quem quer olhar o cadáver? E comparar, refletir? Stuart, Gillian e Oliver se recusam, cada qual a seu modo, a procurar as lições que seus cadáveres deixaram.

O que o primeiro livro tinha de “Jules et Jim” fica à margem na sua sequência. O trio começa a revelar suas entranhas, seus pensamentos mais interiores, criando no leitor uma tensão dramática insuportável. Barnes discute o amor pelas vozes de Stuart (“O primeiro amor é o único amor”), Gillian (“O amor verdadeiro é o único amor”) e Oliver (“O amor é tudo e o resto da vida é um mero etc”, “O máximo possível do amor é o único amor”). Coloca em questão vingança, confiança, traição, obsessão.

Stuart deixa aflorar no desenrolar da trama seus objetivos, naquelas entrelinhas que apenas os Escritores sabem onde encontrar, revelando frieza e sua dependência emocional de Gillian. De forma sutil, Barnes expõe seu plano através dos personagens secundários, como a ajudante da ex-mulher. O acomodado bancário se torna um homem de decisões e soluções. Oliver não absorve o impacto e cai no desespero, traduzido nas suas intervenções ilógicas e nas suas aparições reduzidas. Gillian, embora permaneça conformada com sua vida e opções, deixa o equilíbrio e assume papel de risco.

A narrativa desabrocha e revela suas camadas à medida que Stuart se engalfinha na vida da ex-mulher. O escritor é econômico, o que não significa o inverso de intenso. Em poucas palavras, passa um universo inteiro de emoções. Como ao descrever a reação de Gillian ao ouvir sua amiga falar da obsessão de Stuart: “Ela sorriu”. Ou em uma frase de Stuart em momento chave da trama: “A confiança leva à traição”. Pode até parecer um ditado popular, mas o que há por trás dessas palavras é um mundo que poucos têm coragem de olhar. Barnes fez questão de nos mostrar, ainda que nas entrelinhas, nas amarras da história, sem maniqueísmos . Convenções à parte, fez grande literatura.

O final é desconcertante, surpreendente e questionador. Barnes não busca apresentar fatos posteriores, com conclusões e afins. Indaga o leitor de ações humanas, crueis ou não, mas humanas. E é em Gillian, o antigo ponto de equilíbrio, que o romance apresenta seu questionamento conclusivo, se é que existe algo assim: “Essa é a pergunta não respondida sobre as vidas que poderíamos ter vivido e não vivemos; as alternativas abandonadas, as escolhas esquecidas (…) Stuart me ama? Ainda? De verdade? Como ele disse? Essa é a palavra-chave. O que é que você acha?”.

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