Brasil, Entrevista, Ficção

“Acho uma pena que as pessoas acreditem que a ‘realidade’ seja algo assim tão facilmente apreensível”

Ricardo Lísias propõe um desafio ao leitor, especialmente do seu último livro, “Divórcio” (Alfaguara). Passar por suas páginas sem imaginar que o que lê é uma autobiografia. “O Céu dos Suicidas” (Alfaguara), o anterior, já propunha o embate, fortalecido na nova obra.

Como seu contemporâneo Michel Laub, Lísias não faz uso de fronteiras – pode-se pensar em autores como o norte-americano Paul Auster e o francês Emmanuel Carrére, que misturam real e ficção sem cerimônias. Seus personagens são homônimos, é possível pescar aqui e ali fatos que fazem parte da história do escritor, mas, no fundo, o leitor sempre vai ficar a desconfiar.

Lísias foi ao extremo em “Divórcio”. Em um trecho, diz que o livro é pura ficção, para páginas mais tarde dizer que é tudo real. Ele faz referências ao livro “O Céu dos Suicidas” e à sua trama, relata sua fixação por correr e sua escolha entre os melhores escritores brasileiros segundo a revista “Granta” (Objetiva).

Tudo isso é assimilável, mas chega a um nível perigoso na trama principal. Quatro meses após o casamento com uma jornalista de cultura de um grande jornal, o escritor Ricardo Lísias se vê separado e tendo que lidar com a raiva, inconformado com o que aconteceu. As coisas pioram quando ele encontra o diário da ex, cheio de referências ao marido, de suas manias, sua (falta de) ambição, enquanto tece autoelogios e descreve seu modo de trabalho – nem sempre ético, mas muito glamouroso.

Ricardo Lísias, o personagem, então parte para o confronto, dispara e-mails, tenta contato com a rede de amigos em comum, enquanto treina para a São Silvestre. Entremeando o seu cotidiano, lemos trechos do diário, que parecem escritos por uma novata.

Ricardo Lísias, o escritor, descreve o meio mesquinho e arrogante do jornalismo, provoca o leitor a superar a questão realidade/ficção e fixa elementos para destravar um trauma.

O escritor deu uma entrevista para o blog para falar de “Divórcio”. Leia abaixo.

O escritor Ricardo Lísias
O escritor Ricardo Lísias

Incomoda o fato de a discussão sobre realidade/ficção tomar conta dos comentários sobre “O Céu dos Suicidas” e, principalmente, “Divórcio”?
Não fico incomodado, mas acho apenas a questão um pouco mais complexa que o par realidade/ficção. Ou melhor, acho uma pena que as pessoas acreditem que a “realidade” seja algo assim tão facilmente apreensível, quando na verdade a linguagem é determinante em qualquer obra literária (ou melhor, em qualquer situação que a utilize), e ela não é uma ferramenta sem defeitos, características, limitações e possibilidades.

Apesar do tom dominante das resenhas, é impossível escapar da sensação de a realidade se tornar ficção. Fatos reais, como referência ao seu livro anterior, o conto na “Granta”, fotos, insistem em surgir ao longo das páginas. Para o escritor, houve dificuldade no momento de escrever, quando a sua realidade teve que ir para as páginas do livro?
Não tive dificuldade porque acredito muito menos em “realidade” do que aparentemente muitos leitores. O texto para mim é uma construção que, dependendo dos objetivos estéticos e das intenções ideológicas (que na verdade são a mesma coisa), utiliza uma ou outra ferramenta à disposição. Só não acho que as ferramentas à disposição, repetindo a resposta anterior, sejam assim tão neutras para apresentar essa tal “realidade”.

 capa  Ricardo Lisias Divorcio.inddVocê escreve que “Divórcio” é um romance sobre o trauma. Esse trauma se reflete no momento de separar o que levar ao livro e o que deixar de fora?
Acho que sim, mas no caso esse é um trauma que acontece em todos os textos e muitas vezes é um dos maiores desafios do autor.

 Os textos escritos para jornalista em “Divórcio” são pobres e com erros de português. Além da necessidade de mudar o estilo, houve também a intenção de tirar os jornalistas de um pedestal?
Em parte, sim. O livro procura discutir aspectos inerentes à imprensa nacional. Mas os trechos do diário também servem para constituir uma personagem com algum tipo de distúrbio psicológico, e como a personagem se constitui através do texto do diário, o choque entre a forma de escrever e o que é dito era necessário.

Num artigo escrito para a “Ilustríssima” de 29/9, sobre dois livros que tratam do caso Pimenta Neves, Carlos Eduardo Lins da Silva lançou mão de uma série de aforismos sobre realidade/ficção. Por exemplo:

  • Mark Twain: “A única diferença entre realidade e ficção é que a ficção precisa ter credibilidade”.
  • Borges: “A realidade nunca é provável, mas quando alguém escreve ficção tem que fazê-la maximamente plausível, senão ela será rejeitada pela imaginação do leitor”.
  • Gostaria que você comentasse essas duas máximas, como elas se encaixam nos seus dois últimos livros.
    Não acho que nos tempos atuais termos como “credibilidade” ou “plausibilidade” sejam assim tão imperativos. Hoje as questões vão muito além e inclusive a assim chamada realidade é muito mais implausível do que qualquer criação, me parece.

Num trecho de “Divórcio”, você escreve: “Acredito que a arte deva desafiar qualquer tipo de poder.” “Divórcio” desafia quais poderes?
Por exemplo o chamado “quarto poder”, o poder que a grande imprensa acredita ter. Também acho que o livro discute questões éticas no meio cultural. O poder dos grandes festivais de cinema.

Pesquisas indicam que poucas pessoas clicam nos links postados no Facebook e Twitter. Como essa superficialidade afeta a produção autoral?
“Divórcio” critica mais a superficialidade em geral da chamada, de novo, grande imprensa. Ao menos até aqui, no meu livro tem acontecido o contrário: as pessoas estão lendo e comentando. Não sei como funcionam exatamente as redes sociais em todos os meios, mas nos que eu dialogo, e não com muita intensidade, as pessoas de fato comentam o conteúdo. Não é muito, mas algum debate há. Não sei dizer se as pessoas fazem leituras superficiais, o que eu percebo é que, no caso da literatura, a leitura é no geral de matriz realista, sem por exemplo observar a autonomia da obra literária.

capa lisisas sucicidasEm “O Céu dos Suicidas” e “Divórcio”, o corpo é algo fundamental. A pela que se restaura, o esforço físico para correr. David Cronenberg também utiliza o corpo como um dos seus elementos de seus filmes. Qual a importância do corpo para a sua literatura?
Acho que em alguns textos tento lidar com as personagens em estado de grande prejuízo psicológico, às vezes por conta das situações em que eles se colocam, às vezes por causa de fatos sociais ou, mais ainda, históricos. Em situações de privação, o corpo é normalmente a única coisa que resta. É quando já não nos sobra muito, ou quase nada resta…

Seus dois últimos protagonistas vivem numa espécie de limite entre a reflexão e a pura raiva, com estouros de gênio – mais constante em “O Céu dos Suicidas”. O Ricardo Lísias personagem amadureceu de um livro para outro?
Na verdade, acho que são personagens inteiramente diferentes. Não os vejo como uma continuidade no tempo, mas essa é uma leitura minha, sem qualquer ordem hierárquica sobre outras leituras.

Emmanuel Carrére é um dos autores contemporâneos que misturam realidade e ficção em sua literatura. Foi uma de suas influências para a construção do Ricardo Lísias personagem? Você já leu seus livros?
É um autor que acompanho, sem dúvida, mas não sei dizer em qual grau de intensidade ele teria me influenciado. Também acompanho Herta Müller, Michel Houellebecq, J. M. Coetzee e vários outros.

Eu li os dois livros no formato eletrônico – no Kobo. O que você acha do formato?
Não tenho nada contra o formato eletrônico, mas ainda não comprei um leitor: por mera falta de oportunidade, em alguns momentos, e em outros porque resolvi usar o dinheiro para outra coisa!

Há planos de digitalizar seus outros livros?
Estou para publicar um ebook que será uma coletânea de artigos críticos que escrevi desde os vinte anos. Deve sair até o fim de novembro no e-galáxia. De resto, ainda não tenho nenhum outro plano formal, mas quero entender melhor o formato digital.

Anúncios

5 thoughts on ““Acho uma pena que as pessoas acreditem que a ‘realidade’ seja algo assim tão facilmente apreensível””

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s