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“O que se chama amor é o exílio”

“Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” Essa citação me acompanha regularmente, pois, mais do que conteúdo, há poesia, ritmo, em tão poucas palavras.

Essa prosa telegráfica pontua o livro de contos  “Wostward Ho”, de Samuel Beckett, de 1983 e até onde sei nunca traduzido no Brasil.

Nunca consegui achar uma tradução aceitável, me soa melhor o trecho em inglês, cifrado, pontuado, como todo o original – neste link, vai a íntegra do texto.

10758gSempre que me lembro da citação me pego indo até a estante para folhear “Primeiro Amor” (CosacNaify), um livro escrito em 1945, só lançado em 1970 e que li pela primeira vez há uns oito anos, quando saiu a tradução para o português.

A novela de Beckett, curta, para embalar uma noite apenas, tem trama simples, com seu personagem errático. O narrador conta sua história com Lulu, rebatizada no meio do caminho de Anne, prostituta que vai ser o objeto de desejo da memória.

As reminiscências se transformam em um aprendizado à força para o narrador, como um fluxo de consciência em que o amor domina. Essa é a minha prosa preferida de Beckett.

Uma boa análise do livro segue no link, escrita por Fábio Souza de Andrade.

“As coisas devem ter passado de modo completamente diverso, mas que importa, a maneira como as coisas se passam, desde que se passem? E todos aqueles lábios que tinham me beijado, aqueles corações que tinham me amado (é mesmo o coração que ama, não é, ou será que estou confundindo com outra coisa?).”

“O erro da gente é dirigir a palavra às pessoas.”

“Não somos mais nós mesmos, nessas condições, e é penoso não ser mais você mesmo, ainda mais penoso do que sê-lo, apesar do que dizem. Pois quando o somos, sabemos o que temos que fazer para sê-lo menos, ao passo que quando não o somos mais somos qualquer um, não há mais como nos apagar. O que se chama amor é o exílio, com um cartão-postal da terra natal de vez em quando, foi esse o sentimento naquela noite.”

“Eu não me sentia bem ao lado dela, mas pelo menos me sentia livre para pensar em outra coisa que não ela, e isso já era enorme, nas velhas coisas experimentadas, uma depois da outra, e assim pouco a pouco em nada, como que descendo gradualmente em águas profundas. E eu sabia que, abandonando-a, perderia essa liberdade.”

“Mas assim que parava ouvia-os de novo, cada vez mais fracos, certamente, mas que diferença faz que um grito seja fraco ou forte? O que é preciso é que ele pare. Durante anos acreditei que iam parar. Agora não acredito mais. Teriam sido necessários outros amores, talvez. Mas o amor não se encomenda.”

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2 thoughts on ““O que se chama amor é o exílio””

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