Comentário, Estados Unidos, Ficção, HQ, Hungria

O pai e a mãe, na visão de uma lésbica: as HQs de Alison Bechdel

Em “A Ausência que Seremos” (Companhia das Letras), o colombiano Héctor Abad reconta a história do pai, assassinado em praça pública, ao mesmo tempo em que revê sua relação com ele. Em tom semelhante, Paul Auster tenta entender como é ser filho e pai, em “A Invenção da Solidão” (Companhia das Letras).

Philip Roth também busca essa compreensão em “Patrimônio” (Companhia das Letras), mas na luta diária de seu pai contra um tumor cerebral.

Já James Ellroy, no seu fabuloso “Meus Lugares Escuros” (Record), investiga a morte de sua mãe, ao mesmo tempo que promove um passeio pelas lembranças dessa relação.

A lista de livros que investigam a relação pais-filhos é enorme, mas poucos foram os que me tocaram genuinamente. Além dos citados, passei por duas HQs de Alison Bechdel que me deixaram embasbacado.

65058_ggComecei pelo segundo volume, recém-lançado, “Você É Minha Mãe?” (Quadrinhos na Cia), em que Bechdel, de forma autobiográfica, relata a experiência com sua mãe após o suicídio do seu pai. Ela que, praticamente de forma simultânea, declarou-se lésbica enquanto seu pai se dizia gay.

A relação com a mãe alterna toques carinhosos e puro conflito – mãe que deixou de beijar a filha quando esta tinha 7 anos. Desse abismo afetivo, a norte-americana vai buscar reminiscências para tentar entender esse campo minado.

Cada capítulo é aberto com o relato de um sonho, depois dissecado por meio de Freud e Winnicott. Entram no repertório Dr. Seuss, Camus e Virginia Wolff.

O lançamento de “Você É Minha Mãe?” exigiu a busca e leitura de “Fun Home” (Conrad). Neste, Alison vai à sua infância e adolescência para resgatar seu pai. De certa forma, ler o primeiro volume por último, opção inconsciente, facilitou a compreensão do segundo. O pai está por inteiro na vida da filha, e a controle por meio de suas manias e do diálogo literato.

Aqui, Alison incorpora Proust, Joyce e Oscar Wilde, autores que a ajudam a se descobrir e tomar atitudes. De um começo tenso, quase sufocante, o livro se abre como um alívio após a revelação de que é lésbica. A relação com seu pai se altera e se torna fraterna.

Ao final, ambos estão próximos, íntimos, como nunca antes. Mas por pouco tempo.

Os dois volumes têm diálogos cortantes, texto muito bem embasado e um ritmo que incorpora bom humor em meio a situações de tensão. Alison mergulhou de forma corajosa na sua história e a recontou com vigor, sem meias palavras e com uma pena afiada.

A leitura dos dois livros me lembrou de “Os Verbos Auxiliares do Coração” (Cosac), do húngaro Péter Esterházy. Se Alison reescreveu sua história baseada na vida, o escritor se apoiou na morte.

No blog antigo, escrevi um post sobre “Os Verbos”. Leia trechos do livro abaixo. Depois, vai uma página de “Fun Home”:

“O narrador escreve logo depois do funeral da mãe, enquanto tenta se reerguer do choque. Vai lidar com a dor, a ausência e a forma como as pessoas se relacionam com o fato. Numa prosa delirante, ele mistura realidade com sonhos, interpreta ambos, para tentar continuar. Essas anotações são intercaladas por narrativas da mãe morta, o que lega ao livro uma dose de humor.

Ele tenta lutar com sua incapacidade de escrever naquele momento, ao mesmo tempo em que revisita seu passado para lembrar da mãe. Essa briga por ‘espaço’ sintetiza a obra, pois o narrador surge como perturbado, por vezes incoerente em sua narrativa.
O texto traduz à perfeição essa dualidade, essa narrativa fragmentada, desconexa, mas que transpira dúvida, emoção e impulso”

Funhome

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