Cinema/Roteiro, Comentário, Ficção, França, Música

Entre a fantasia e o surrealismo, há espaço para a doçura

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Joel e Clementine na praia de Montauk

Meu primeiro contato com Michel Gondry foi com o clipe de “Like a Rolling Stone”, com os Rolling Stones, em 1995. Mas só fui acordar para o diretor francês dez anos depois, quando assisti no cinema a “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança”.

O impacto com o filme foi tão grande que fui ao cinema quatro vezes seguidas. A história de Clementine e Joel me fez procurar a filmografia de Gondry, na época restrita a mais um filme, “A Natureza Quase Humana”.

Depois, veio “Rebobine Por Favor”, uma homenagem ao cinema – mas, em perspectiva, toda homenagem ao cinema se torna simplória após “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese.

capa_espumaSe pularmos “O Besouro Verde”, chegamos a “A Espuma dos Dias”. Não vi o filme ainda, mas li o livro que o inspirou, do francês Boris Vian, lançado pela Cosac na esteira da estreia nos cinemas.

O livro é de 1947, um pós-guerra que reflete uma França ainda desnorteada. Seis amigos vivem de forma caótica, sem estrutura e sempre a buscar apoio nas contingências. Ao som de Duke Ellington.

Vian escapa pelo nonsense. A espinha dorsal é uma história de amor como tantas outras, que começa com um encontro furtivo e caminha linearmente. Entremeando, o autor lança mão de pequenas esquetes, que beiram o absurdo – como a procura de emprego de um dos personagens, Colin. Ou a obsessão por Sartre, encarnada por Chick, que viva a perambular pela cidade e livreiros atrás de obras, documentos e qualquer item que tenha sido tocado pelo escritor francês.

Jogos de linguagem fazem com que a leitura se torne quase onírica. A flor que ataca o pulmão de Chloé, que logo se casa com Colin, só é tratada com flores, uma alegoria que se transfere para o andamento do livro. Ao virar das páginas, personagens e atos se tornam mais sombrios, para contrastar com início, recheado de bem-viver.

Há fantasia e surrealismo. Mas também há uma certa doçura no sexteto que antecipa o que a França viveria décadas depois. Lembra, no espírito, “Os Sonhadores”, o filme de Bernardo Bertolucci sobre a Primavera de 68. Da festa à melancolia, livro e, por que não, filme caminham por universos semelhantes, a fazer emergir uma certa descrença.

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