Comentário, Ficção, Itália

O tempo e a saudade

“Perguntei-lhe sobre aquele tempo, quando ainda éramos tão jovens, ingênuos, impetuosos, tontos, despreparados. Algo disso restou, menos a juventude.”

LV274227_NEsta foi minha porta de entrada para a obra de Antonio Tabucchi. É o trecho de abertura de “O Círculo”, o primeiro conto de “O Tempo Envelhece Depressa” (CosacNaify). Como não se envolver, então, pela história do homem que se apaixona pelo ar de uma canção, em “Yo Me Enamoré Del Aire”? Os contos abrem caminho para proporcionar descobertas ao mesmo tempo em que seus personagens questionam seus lugares.

Depois, visitei o romance epistolar “Está Ficando Tarde Demais” (Rocco), em que 17 homens escrevem 17 cartas a diversas mulheres, de forma a criar um emaranhado de sensações que se cruzam quase sem saber, sem ter relações próprias.

“É por isso, como diria o meu amigo, que escolheram o silêncio as pessoas que na vida de um modo ou de outro escolheram o silêncio porque intuíram que falar, e sobretudo escrever, é sempre um modo de chegar a um acordo com a falta de sentido da vida.”

O livro é de 2001, e nunca o silêncio deveria ser tão preservado como nestes dias de pura exposição. Tabucchi, assim, explica o tormento que iria afligir, num futuro próximo, a todos.

ArquivoExibirCitei esses dois livros do escritor italiano para abrir espaço a “Afirma Pereira”, recém-lançado pela Cosac. Uma pequena obra-prima que narra a história de um jornalista, de hábitos quase imutáveis, que se vê por acaso no turbilhão da Guerra Civil Espanhola.

Pereira conversa com a fotografia de sua mulher morta, toma limonada e come omelete no mesmo café, servido sempre pelo mesmo garçom, na Lisboa vizinha aos conflitos de Franco. Editor da página cultural de um semanário que se diz independente, aos poucos Pereira assume um ar paranoico, sempre a enxergar vigilâncias. Também encarna uma certa utopia, própria dos jornalistas, ao acreditar no trabalho independente.

Ao conhecer um filósofo, que queria contratar para escrever obituários de escritores (“todos impublicáveis”, afirma Pereira), o jornalista mergulha num percurso que irá mudar sua vida até então pacata e rotineira.

Tabucchi desvenda aos poucos esse Pereira, explica suas ilusões e conformismo em diálogos primorosos, como os que tem com o dr. Cardoso, o médico que irá tratá-lo numa espécie de spa.

Vai evocar Fernando Pessoa, nome caro a Tabucchi, e seu desassossego.

Fugas, separações, indignação, catolicismo, fascismo, tudo isso leva Tabucchi a fazer um retrato de uma época, com parcimônia, refletida num texto enxuto, breve e potente.

“Mesmo pensando assim, não sentiu nenhum alento, sentiu, ao contrário, uma saudade enorme, não saberia dizer de quê, mas era uma saudade enorme de uma vida passada e de uma vida futura, afirma Pereira.”

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