Crônica

O virar das páginas

Quando era criança, meus pais e eu tínhamos um acordo: em um mês, eu ganhava um disco, para no outro eles me darem um livro. A memória que tenho é esta, não me lembro quando começou, por que e quando acabou esse acordo. Devia ter uns 10, 11 anos, acho.

Só me resta mais uma lembrança, o primeiro disco que veio por meio desse acordo: “For Those About to Rock We Salute You”, do AC/DC. Não me recordo do primeiro livro nem dos presentes seguintes.

Consequência disso ou não, sei que hoje sou um leitor e um ouvinte.

Tive essa memória depois de ter lido o seguinte post no Instagram:

“Tenho 27 anos e meus pais ainda alimentam a minha paixão que me mobilizava quando eu tinha menos de 10. Nada mais, naquela época, me tocou tanto quanto as histórias que li. Como pais que assistem aos filhos no campeonato da escola, meus pais me esperam com livros novos quando chego em casa do trabalho. É como se dissessem: ‘Se é tua paixão, deixa que ela te tome’. E eu deixo.”

A foto do Instagram | Rafaela Marques
A foto do Instagram | Rafaela Marques

Para ilustrar, uma foto de “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, de Jorge Amado. Era o presente da autora do texto.

Rafaela Marques, dona do perfil do Instagram do qual pesquei o post acima, foi minha anfitriã em São Luís em junho, onde fiquei uns dias a trabalho. É sócia da agência Matilde Conteúdo & Guerrilha e uma das organizadoras do TEDxPraçaDaAlegria, que acontecerá em novembro na capital maranhense.

O post me comoveu, não só por reavivar memórias, mas também porque de alguma forma me vi num espelho. Pedi para ela responder algumas perguntas sobre essa experiência. As respostas estão abaixo.

Vc se lembra do primeiro livro que seus pais lhe deram?
Não lembro do primeiro livro, mas lembro de dois livros que foram um dos primeiros, um deles com uma dedicatória da minha mãe. Não lembro dos títulos, mas lembro das ilustrações. Lembro que li algo como a história de uma sementinha que não queria ser germinada e lembro de um livro sobre dois irmãos e uma mulher que eles pensavam ser bruxa. Não tenho esses livros. Foram ficando lá em casa e, depois de mudanças nas prateleiras, tomaram rumo ignorado.

Quais autores foram apresentados por seus pais e se tornaram favoritos?
Meus pais me apresentaram mais autores nacionais. Até hoje eu leio muita literatura nacional. Minha mãe é formada em filosofia, tem um pendor para questões existencialistas, para teologia. Meu pai é jornalista, joga no time dos leitores de não ficção e história. Tenho influências dos dois, mas gosto de muita coisa que nenhum dos dois gosta. Meu pai ama biografias, por exemplo. Eu li a do Tim Maia e só – e gostei, mas não está entre meus preferidos. Minha mãe me apresentou Karen Armstrong, Leonardo Boff, Rubem Alves. E meu pai me deu coisas como “Morte e Vida Severina”, me apresentou literatura urbana, clássicos políticos.

Qual foi o último presente?
O último foi “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, que meu pai sempre adorou. Ele tinha um exemplar e perdeu antes de eu ler.

Como surgem as escolhas?
Sinto ser pouco romântica nesse ponto, mas eu sempre peço mesmo. Sou pragmática: “esse livro eu quero, está na lista dos próximos”. O último, a escolha foi uma surpresa, e sempre é, mas normalmente a surpresa é a circunstância. Meus pais me conhecem. Sabem exatamente em que prateleira estão meus livros e me acham lá.

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