Comentário, Ficção, Hungria, Relatos de viagem

Um país parado no tempo

“O maior impedimento é a burocracia”, interrompeu um dos engenheiros enquanto entrávamos no carro para almoçar na cidade, “a burocracia brasileira”.

Livro-Brasil-em-MovimentoPoderia ser um declaração dada por alguém que estivesse trabalhando em qualquer obra privada ou estatal hoje, mas não. O trecho é parte de “O Brasil em Movimento” (Benvirá), relato das viagens que John dos Passos fez ao país em 1948, 1958 e 1962 pela revista “Life”. Ele visitava, na época da declaração acima, as obras da ferrovia do rio Doce, que iria se transformar no principal canal de transporte de minérios. Iria conhecer depois obras no interior do Paraná e da construção de Brasília.

O livro é cruel. Passos tenta entender o modo de ser do brasileiro, principalmente da classe política, suas entranhas e vícios. O relato, de forma impressionante, é atual.

1204880-250x250Assim como “O Vale do Fim do Mundo” (CosacNaify), do húngaro Sándor Lénárd. Misto de ficção com relato pessoal, o livro é uma crônica de costumes do Brasil dos anos 50 e 60. Lénárd veio ao país como refugiado da 2ª Guerra Mundial e se estabeleceu em Donna Emma, cidade do interior de Santa Catarina.

Às vésperas do que muitos chamam de “o maior protesto já visto no Brasil”, a leitura dos dois livros mostra que o país não mudou muito nos últimos 60 anos – é só ler os trechos sobre educação e saúde abaixo, que chegam a assustar diante de tal atualidade.

A visão estrangeira, longe dos vícios locais, é rude muitas vezes, principalmente quando surge a comparação com a vida na Europa e nos Estados Unidos. Mas não dá para evitar a certeza de que Passos e Lénárd traduziram com perfeição um país que desde sua fundação tenta se sustentar e consolidar bases de justiça e direito.

As duas obras, além de belíssima literatura, ajudam a entender este país.

“Brasília terá o primeiro aeroporto do mundo especialmente planejado para a era dos jatos”, continua o dr. Israel. “É a primeira cidade planejada a partir do ar.”
De “O Brasil em Movimento”

“Ficamos surpresos em encontrar em um discípulo do funcionalismo de Le Corbusier tão pouca atenção às funções necessárias a um prédio. Em caso de incêndio, perguntávamos-nos, como sairíamos dali?”
John dos Passos sobre Oscar Niemeyer e Brasília

“Os prédios já concluídos permaneceriam como mais um monumento à mania brasileira de projetos grandiosos postos em marcha precipitadamente.”
John dos Passos

“Esses céticos estavam aplicando para os brasileiros o velho ditado que costumava ser utilizado para os turcos: sempre construir, raramente terminar e nunca consertar.”
John dos Passos

“As estradas eram ruins. O serviço ferroviário não podia ser pior. Os governos estadual e nacional estavam muito distantes. Deu um soco na mesa e soltou uma frase frequentemente repetida: ‘O Brasil cresce à noite enquanto os políticos dormem… Iniciativa!’.”
John dos Passos em conversa com um guia em Maringá

“Não há como ver a cidade sem ser de carro. Em Brasília, um homem sem carro é um cidadão de segunda classe. Os habitantes mais pobres terão de desenvolver rodas em vez de pés.”
John dos Passos volta a Brasília após sua inauguração

“Assim, existe a Academia dos Imortais, todos os quarenta homens ilustres têm um fraque verde bordado em ouro e um sabre enfeitado, mas a escola primária tem problemas, porque não há professores.”
“O Vale do Fim do Mundo”

“As férias são mais longas que o período escolar; nos feriados evangélicos, católicos, nacionais, no dia do santo protetor da época, no aniversário do diretor e quando chove muito não há aula.”
“O Vale do Fim do Mundo”

“Mas mal se tinham formados as primeiras dúzias de médicos e, para defendê-los, criaram-se leis que dificultavam terrivelmente a nacionalização dos diplomas médicos europeus. A Universidade de São Paulo simplesmente não os nacionaliza. De repente, havia menos médios no país do que antes. Como os médicos, também são poucos os farmacêuticos que pensam em se mudar para o interior selvagem. Os legisladores tiveram de inventar decretos completamente novos para burlar as próprias leis.”
“O Vale do Fim do Mundo”

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