Brasil, Colaboração, Comentário, Não ficção

Uma cidade e seu tabu

A história recente do Brasil aos poucos está sendo resgatada, ainda que em iniciativas isoladas, em longas reportagens publicadas em livros. Casos que, se não mudaram o rumo, marcaram época e pessoas ganham páginas e resgatam momentos impactantes.

Um exemplo é “Notícias do Planalto” (Companhia das Letras), em que Mario Sergio Conti reporta a história da queda de Collor. Há mais, entre outros:

  • “Chico Mendes – Crime e Castigo” (Companhia das Letras), de Zuenir Ventura
  • “O Crime do Restaurante Chinês” (Companhia das Letras), de Boris Fausto
  • “Corações Sujos” (Companhia das Letras), de Fernando Morais
  • “O Espetáculo Mais Triste da Terra” (Companhia das Letras), de Mauro Ventura
  • “O Massacre – Eldorado de Carajás: Uma História de Impunidade” (Planeta), de Eric Nepomuceno

HolocaustoUm livro que cutuca feridas ainda não explicadas está galgando a lista dos mais vendidos. “Holocausto Brasileiro – Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil” (Geração Editorial), de Daniela Arbex, recupera a história da Colônia, o manicômio instalado em Barbacena (MG).

O título oscila entre dois limites. A recuperação de histórias de personagens que viveram no hospício é um trabalho de reportagem de primeira, pois não fica apenas a elencar nomes, mas a retratar um período e um quadro. Através das escolhas de Daniela Arbex é possível entender e visualizar como funcionava a colônia e viviam as pessoas internadas e os funcionários. As fotos de Luiz Alfredo, então da revista “O Cruzeiro”, também resgatadas, ampliam o choque.

No oposto, faltou contexto. A autora não explica como surgiu, se manteve e foi desmontada a colônia. Não retrata como a cidade encarava a colônia e seus internos. Não compromete, mas deixa um gosto de obra inacabada. De qualquer forma, os relatos colhidos impactam, mas deixam no ar perguntas que parecem sem respostas. Como aquilo existiu e sobreviveu? Qual o tamanho do mal que a colônia causou?

O blog convidou a jornalista Renata Monteiro, que morou em Barbacena durante sua infância e adolescência, para contar como era a vida na cidade sob a sombra da colônia. Seu depoimento segue abaixo.

Mulheres em espaço da colônia | Foto: Luiz Alfredo
Mulheres em espaço da colônia | Foto: Luiz Alfredo

As rosas e os loucos, por Renata Monteiro

“De onde você é?”
“De Barbacena.”
“Ah, a cidade dos loucos!”
“Não. A cidade das rosas.”

A última resposta também sempre admitiu variações: “cidade que cuida dos loucos enviados pelas cidades dos outros”.

Quando recebi o convite para fazer este depoimento, só conseguia me lembrar desse tipo de diálogo. São perguntas e respostas presentes em minha vida desde que me entendo por gente. Morei em Barbacena a partir de 1981, dos 5 aos 17 anos. Antes e depois disso, sempre estive ligada à cidade que meus avós escolheram para viver. Todo mês, invariavelmente, escolho pelo menos um final de semana para passar lá, ao lado de pessoas queridas. É minha terra. Assim eu considero.

Não me lembro da primeira vez na vida em que ouvi que Barbacena é a cidade dos loucos. Tenho certeza de que em minha infância naquela terra fria nunca me disseram que ali houve um dia um hospital onde milhares de pessoas foram internadas, muitas delas arbitrariamente, e onde as maiores atrocidades e violações dos direitos humanos eram cometidas à luz do dia. De todos os dias.

Sou filha de professora, mulher esclarecida. Mas realmente essas foram palavras que escaparam à minha infância. Não foram ditas em casa nem nos bancos escolares. Num fim de semana recente em que passei em Barbacena, conversei com uma amiga da minha geração. Sim. Chegamos a uma conclusão. Era um assunto tabu. Apenas subentendido. Jamais dito.

Mas não é preciso fazer esforço para me lembrar dos muros altos dos tantos hospitais psiquiátricos pelos quais passávamos em nossos caminhos do dia a dia. Das frases às vezes escapulidas de que “fulano já ficou ali”. Das histórias de famílias que tinham ainda gente internada naqueles lugares. Ou mesmo dos doidos das ruas, figuras que assombravam nossa geração e sobre as quais ouvíamos as histórias mais amedrontadoras. Que criança dos anos 80 não temeu Maria Tatu, Torresmo ou Isabelinha? Quem é de Barbacena sabe do que estou falando.

Lembro de uma visita, já na adolescência, a uma pessoa em um hospital psiquiátrico. Muros altos. Grades. Silêncio. Rostos que me arrepiavam. Olhares perdidos que pareciam gritar.

Essa é a cidade dos loucos que povoa minhas memórias, a cidade do holocausto brasileiro. Assunto sobre o qual só ouvi falar abertamente já na idade adulta, quando já tinha saído de Barbacena. Foi a era da desospitalização, da criação do Museu da Loucura. Estive na entrada do museu uma vez, mas confesso que não consegui entrar. Bem ali em frente estava o Parque de Exposições, onde passávamos as noites da nossa juventude celebrando a vida nas então famosas Exposição Agropecuária e Festa das Rosas. Diante da prisão, o anseio pela liberdade.

Um pouco depois da desospitalização e do museu, veio o Festival da Loucura. Já me chamaram várias vezes para ir. Diziam que acontecia nas ruas, que era bacana, que a cidade ficava movimentada, que havia shows interessantíssimos de artistas que nunca pisaram em Barbacena. Nunca fui. Talvez, sem eu perceber, aquele assunto tabu tenha se enraizado em mim.

Na era pós-hospitalização, já fui a uma residência terapêutica para visita. Estar ali era importante para mim por laços de afeição. Mas os rostos daquelas mulheres me incomodavam. É fácil imaginar o tanto de vida e de gente que deixaram aqui de fora. Difícil é pensar o que seus corpos e suas mentes enfrentaram nesses anos todos de clausura. Elas não falam disso. Mas seus olhos, de alguma forma, denunciam.

Ver a movimentação toda em torno do que Barbacena tenta fazer com essa parte de sua história sempre me fez lembrar do Rio de Janeiro, que andou sedento, num passado recente, por recuperar o orgulho de sua gente. Amo a minha cidade. Mas não acho, no caso de Barbacena, que a tentativa tenha surtido efeito.

Os kardecistas falam em resgates coletivos de povos e isso também me lembra Barbacena. Acho que a loucura e os anos de silêncio são uma conta ainda alta para aquela terra. A cidade não pagou. É um lugar frio, de um cinza tristonho, misterioso. De gente fechada. De muros e janelas trancadas. Uma cidade que amo. Mas uma cidade das rosas em que – como me disseram um dia e eu nunca mais me esqueci – você anda, anda, anda e não vê nenhuma rosa.

Anúncios

3 comentários em “Uma cidade e seu tabu”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s