Crônica, Ficção, Guatemala

Do banquete às páginas de um livro

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O corredor para o banquete

A noite começou assim, no alto de Tiradentes, no horizonte da serra de São José, com um frio incomum para quem estava lá embaixo, nos largos da festa.

Brioches com manteiga e coalhada deram as boas vindas aos comensais, num salão de pousada que poderia muito bem receber um banquete medieval.

Para abrir o festim, veio um terrine de foie com jabuticabas, bem equilibrado. Depois, para aquecer, um creme de baroa, cogumelos, castanhas e brotos.

Então, chegou a hora dos pratos principais. Começou com um peixe, creme de banana e pupunha. Depois, vitela com natas de alho-poró e farofa de leite.

A papada com a mandioca | Jô Moreira
A papada com a mandioca | Jô Moreira

Até o momento maior do festim, a papada de porco ensopada e grelhada com mandioca em mil-folhas. Já havia provado o prato no restaurante do chef Leonardo Paixão, o Glouton, algo sensacional, e sabia o que me esperava. E comi o que realmente ansiava.

Para sobremesa, a primeira buscou o tradicional: queijos com doces de fazenda – doce de leite, goiabada, figo, mamão -, já devidamente harmonizados. Depois, biscoitos de broinha de fubá, sorbet de cagaita, poeira de buriti  e castanha de pequi glaçada, um homenagem ao cerrado.

A degustação, chamada de Nova Geração Mineira, chamava a atenção para três chefs que estão retrabalhando a culinária mineira. No festim, como são chamadas essas degustações no Festival de Cultura e Gastronomia de Tiradentes, algo em torno de 150 pessoas saboreavam esse banquete.

No alto da cidade, a comilança começou às 21h30 e só foi terminar perto da 1h de domingo.

Ao chegar à pousada, já quase 2h, exausto do dia de caminhadas e do deslumbramento gastronômico, tinha a esperança de deitar e dormir. Mas que nada.

770244Deitei e abri um livro, pois o ato se impôs quase como um ritual: “Os Surdos” (Benvirá), do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa. Foi o fechamento que emergiu para o dia.

O relato busca entender a Guatemala atual, ainda influenciada por herança indígena e refém de criminosos. Dois desaparecimentos, de um garoto e de uma filha de banqueiro, conduzem a narrativa, sempre expondo as contradições dos personagens, nunca maniqueístas e que trafegam numa zona cinzenta.

Rey Rosa era um dos autores prediletos de Roberto Bolaño, um nome até então desconhecido para mim até topar com o livro na prateleira principal da livraria. Pego pela curiosidade, levei para casa.

“Os Surdos”, agora, estará sempre conectado a Tiradentes. O que há de ser coerente.

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