Comentário, Ficção, Inglaterra

O livro que se transforma

Colecionadores e aficionados são “vítimas” de uma tática da indústria musical atualmente. Para contar a constante queda nas vendas, as gravadoras encontraram um meio para evitar a agonia: lançamentos especiais de álbuns que marcaram uma era ou que se tornaram clássicos. São as tais edições deluxe, com faixas extras e mais um monte de penduricalhos.

Confesso que é muito melhor comprar uma versão deluxe do R.E.M. – que acabou de lançar “Green”, com faixas ao vivos para comemorar 25 anos do seu lançamento – do que um CD novo de qualquer banda eleita a melhor do ano ou que esteja fazendo a cabeça de indies/hipsters.

A indústria do livro percebeu a onda. Não sei se com os mesmos objetivos, já que os livreiros vivem bom momento – o ebook avança com tranquilidade.

Então, novas traduções e versões com sobras e prefácios, posfácios e fortuna crítica já são mais do que tendência, são a maldição para o bolso.

“Notícias do Planalto”, por exemplo, foi relançado em versão econômica. Perdeu o caderno de fotos que ilustrava a república de Collor, mas ganhou um posfácio do autor, Mário Sérgio Conti, que analisa como os jornalistas que cobriram a crise de 1992 estão vivendo hoje. Li o texto na “piauí”, então preferi manter a primeira edição na biblioteca.

Neste post (Memória fiel), escrevi sobre as novas edições de Nick Hornby, que não substituirão as minhas originais.

O Retrato de Dorian GrayMas não resisti à edição de “O Retrato de Dorian Gray“, de Oscar Wilde, que a Biblioteca Azul acabou de lançar. Publicado em 1891, o livro foi censurado e sofreu cortes. Esta versão foi composta a partir dos originais de Wilde, na íntegra.

A tradução é de Jorio Dauster, responsável pelas melhores traduções de Nabokov e que já verteu Salinger, Ian McEwan e Philip Roth. Traz ainda um rico acervo de notas, o prefácio original de Wilde, sugestões de leituras e ilustrações. É um volume para colecionador, mas deve encantar o leitor que chega a ele pela primeira vez.

Com isso, a edição da Civilização Brasileira não resistiu. Foi para a caixa onde estão os livros que seguirão para doações.

Sem vitimização, mas com um sorriso no rosto sempre que olho para a prateleira na letra W.

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2 thoughts on “O livro que se transforma”

  1. Nesse caso, trata-se mesmo de um livro novo, uma descoberta, nos moldes da versão original do On The Road. E Dorian Gray é realmente maravilhoso. A primeira parte, atulhada de aforismos geniais, é tão boa que o sorriso quase congela no rosto. Depois fica mais sombrio, mas ainda assim muito bom. Não sei se teria paciência para ler essa nova versão, mas é muito gostoso adquirir um livro assim. A minha edição é da Ediouro, As Obras-primas de Oscar Wilder, com outros trabalhos dele incluídos.

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