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Orgulho e preconceito

Torcedores de futebol, no Brasil, têm uma cabeça muito peculiar. Pelo menos é o que deixam entrever com suas atitudes. A semana, por exemplo, foi tomada de manifestações por conta do selo que Emerson deu em um amigo, num restaurante.

Logo, surgiram as reações contrárias para, em seguida, soltarem as justificativas. Os contrários abusaram de uma posição intolerante – consta que com medo das gozações de seus rivais. Depois, vieram as justificativas, de que era apenas uma manifestação qualquer, para mostrar que é preciso ser tolerante. E mais: forçaram a barra para dizer que tanto o jogador quanto o amigo eram casados com mulheres, com filhos. Pareceu-me preconceito, uma emenda pior que o soneto, como a reforçar preconceitos. Era melhor ter ficado só no selo.

Que o futebol é machista o Brasil sabe. Os casos que desviam do “código de ética” dos boleiros viram chacota nos bastidores – e são inúmeros. Nas arquibancadas, é pior ainda. Violência gratuita, intimidação e desprezo são as reações básicas, talvez instintivas, para com os jogadores e torcedores, rivais ou não, que demonstrem um jeito de caminhar diferente.

Não conheço literatura nacional que se preste a entender e decifrar esse quadro. Deveria ter, afinal, não somos o país do futebol? Aparentemente, somos, mas também somos o país que não lê sobre futebol.

Bill Buford pensou diferente. Americano, só conhecia o futebol americano, mas de soccer pouco entendia. Jornalista da safra “The New Yorker”, resolveu deixar as desconfianças de lado e mergulhou no mundo do futebol para entender como o torcedor se comporta em um estádio e o porquê.

companhia-de-bolsoEm “Entre os Vândalos” (Companhia das Letras), o resultado é uma radiografia da mente humana que enche os estádios.

Legou uma obra essencial para a sociologia. Publicado em 1992, o livro capta um momento crucial para o vandalismo na Europa: era a época em que os hooligans dominavam os estádios e tocavam o terror nas cidades em dias de jogos.

Ele foi testemunha do massacre acontecido na Bélgica, quando torcedores da Juventus de Turim e do Liverpool se encontraram – 86 morreram.

Facções nazistas, espertalhões que organizam excursões sem recursos e estrutura, idolotria e fanatismo, o retrato daqueles torcedores, nem sempre os mais inteligentes, é cruel. Os perfis que Bulford traça são primorosos. Ele teve que se infiltrar nas torcidas para conhecer seu modo de trabalho. Viajou, torceu e bebeu cerveja – muitas. Com esse olhar próximo, escolheu personagens e identificou o perfil básico do torcedor que frequenta estádio.

É um torcedor que gasta muito dinheiro para acompanhar os jogos, pois ele bebe – aos litros – e come muito antes, durante e depois das partidas, além de viajar regularmente. E se envolve com outros fãs sem saber exatamente onde está se metendo – no caso dos ingleses, com nazistas, por exemplo.

Distante 21 anos, o livro ajuda a entender como o futebol se tornou uma religião de fanáticos, cujas frustrações são refletidas em campo, assim como seus preconceitos. No meio de tudo isso, há torcedor que realmente torce.

Falta uma obra como essa no Brasil.

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