Chile, Comentário, Ficção

Na profundeza latina

Sou aficionado por livrarias. Qualquer uma, de qualquer tamanho. Se gosto ou não, o reflexo será o tempo que passarei dentro de determinada livraria. E essa relação não depende de eu sair da loja com uma sacola. Posso passar um bom tempo apenas olhando e folheando.

Por isso, na lista de livrarias que foram dispensadas está uma de Uberlândia, considerada por muitos nativos como a melhor da cidade. Quando passei minha primeira temporada por lá, num momento de folga, fui conferir – a única opção que conhecia era uma velha Siciliano no único shopping de então.

Cheguei, rodei e fui embora triste. Todos os livros estavam envoltos em plástico. Todos. Às vezes isso acontece nas livrarias, mas são raros os livros com uma capa plástica – e quando aparece rasgo sem cerimônia. Livro é para folhear, ler trechos, ver ficha, orelha etc.

Nunca comprei nada naquela livraria.

Ao mesmo tempo, já em BH, entrei na Quixote, uma bagunça deliciosa, em que prateleiras sem muita ordem se misturam a um pequeno café, e engato uma conversa com a vendedora, ao me ver entretido com um título de Somerset Maugham (“O Fio da Navalha”).

Pergunta do que eu gosto de ler e me fala de Cormac McCarthy. Falamos de “A Estrada” e “Meridiano de Sangue”. Ela emenda mais alguns autores, de um nome seguimos para outros.

Até que ela me puxa da prateleira “O Obscuro Pássaro da Noite” (Benvirá), do chileno José Donoso. Diz que está entusiasmada com a leitura, e eu rebato: “Nunca li nada dele”. Fala sobre o autor e o tema da obra. Não levei o livro naquele dia. Hoje, me arrependo.

O-lugar-sem-limites1Pois semanas depois entrei em outra livraria, uma Saraiva tradicional, e comprei “O Lugar Sem Limites” (Cosac), do mesmo Donoso – não encontrei o título sugerido pela vendedora da Quixote.

Li em duas noites suas 157 páginas, um romance que soma mais um imaginário ao mapa da literatura: o vilarejo de El Olivo, perdido no interior do Chile.

Escrito em 1966, o livro vai além da exposição da sociedade patriarcal, conduzida por coronéis que fazem suas leis. Antecipa a discussão de gênero e identidade, ao narrar a história de Manuela, um travesti que comanda um prostíbulo em El Olivo e tenta conviver com perseguidores e Don Alejo, o chefe a quem todos beijam a mão.

A história expõe o machismo e as relações esquecidas nos profundos da América Latina – o Chile, na época, vivia um período turbulento pré-Salvador Allende, com a democracia cristã tentando se equilibrar entre a direita e as reformas sociais.

Donoso escapa da narrativa política ao mergulhar nas histórias dos personagens, enraizadas num vilarejo que vive sem energia elétrica e à espera de uma rodovia que nunca chega. O que há de política é superficial e serve como amparo, como um contexto.

Na primeira metade, Donoso lança seus personagens e deixa dúvidas sobre suas origens e motivações. Na segunda parte, a leitura se torna compulsiva, quando o autor não só responde às indagações, mas descreve encontros e relações de forma primorosa. O emprego de flashback é cirúrgico, encaixado como se fosse uma continuação normal de capítulo.

O livro de Donoso lembra muito os romances políticos de Gabriel García Márquez, como “O General em seu Labirinto”, “O Outono do Patriarca” e “Ninguém Escreve ao Coronel”, mas sua prosa é mais enxuta e busca menos o fantástico e mais o realismo.

Ao fim do meu primeiro Donoso, sei que tenho que voltar à Quixote e levar aquela indicação. Se encontrá-la, agradecerei à vendedora por aquela sugestão, pois este “O Lugar sem Limites” é um dos grandes livros que li em 2013.

E sobre livrarias, voltarei a este tema.

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3 thoughts on “Na profundeza latina”

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