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Dos arquivos: Uma história de amor

Gorz e Dorine | Foto de Daniel Mordziski - Editora Galillée
Gorz e Dorine | Foto de Daniel Mordziski – Editora Galillée

“Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.”

Esse trecho já é bem conhecido, mas impossível de resistir e não utilizá-lo para falar de “Carta a D. – História de um Amor”, o livro que o filósofo austríaco André Gorz escreveu para Dorine, sua mulher por quase 60 anos e que estava acometida por uma doença degenerativa chamada aracnoidite.

O texto começa em 21 de março de 2006. Ele, com 84 anos, ela, com os 82 descritos na abertura do livro. O ato final está nas entrelinhas da carta, que irá revelar mais do que algo simplesmente premeditado, mas uma decisão conjunta e sensata dos dois. Pereira da Silva, no posfácio escrito em 26 de novembro de 2007, diz que a leitura deve deixar um “gosto semelhante” a quem ultrapassar as breves 71 páginas da carta. A homenagem a Dorine “foi um puro ato de amor”. É esse “ato de amor” que perpassa a obra, que humaniza o autor e o leitor.

Um filósofo que dedicou mais de 20 anos para cuidar da mulher, que redirecionou sua obra para debater questões que afetaram e provocaram a aracnoidite, uma doença provocada pelo líquido que gera o contraste em radiografias. O medicamento deveria ser eliminado pelo organismo, o que não aconteceu no caso de Dorine, que a partir de então conviveu com dores que a impediam de realizar movimentos até para se deitar. O lipiodol subiu para o cérebro e causou o mal, além de formar um cisto na região cervical.

Dedicado ao estudo do marxismo, Gorz deu voz à esquerda libertária. Seu primeiro livro, “Le Traître”, teve prefácio assinado por Jean-Paul Sartre, que iria acompanhar sua carreira até os eventos de Maio de 1968 na França, quando os dois romperam. A partir daí, Gorz começou uma nova fase do seu trabalho e abriu espaço para discutir ecopolítica, o biopoder de Michel Foucault e a crítica ecológica de Ivan Illitch. Gorz trabalhou também como jornalista no “L’Express” e ajudou a fundar o “Le Nouvel Observateur”.

É esse estudioso que sentou para escrever esta carta de amor, em que busca recuperar a trajetória do casal, de quando se conheceram, se apaixonaram e seguiram vida adentro. Eles se encontraram por acaso em 1947, na Suíça. Dois anos depois, foram viver juntos. Gorz, um judeu austríaco que fugira do nazismo, tentava escrever, enquanto Dorine, nascida na Inglaterra Doreen Leir, era uma atriz de teatro que cavava espaço. Rumaram a Paris, a cidade que atraía a intelectualidade na época e exalava força criativa e de ideias. Dessa relação surgiu o ponto forte do nó que os atava. Dorine se tornou fundamental no trabalho de Gorz, como ele pontua em diversas passagens do livro.

Essa relação não deixa de ter seus percalços, como em “Le Traître”, em que diminuiu Dorine e chega a humilhá-la, ao chamá-la de “coitadinha”. Ela que abandonara sua carreira para ajudar Gorz a escrever seu livro e construir sua obra. Em “Carta a D.”, ele se redime e faz uma autocrítica, quase um pedido de perdão. É dos poucos momentos do livro em que Gorz usa a primeira pessoa do singular para se expressar. O livro todo é conduzido pela primeira pessoa do plural, como a dar corpo a uma entidade única descrita pelas palavras.

O livro passa a explicar a relação do casal, como Dorine era fundamental para a escrita de Gorz. Ele confessa que não conseguiria escrever sem a mulher, ela que foi mais do que a incentivadora dedicada, mas, sim, o motivo de tudo. Como ele deixa claro num trecho em que Dorine se justifica por estar ao seu lado: “Amar um escritor é amar que ele escreva, dizia você. Então escreva!”. Ao que ele devolve: “Eu não posso me imaginar escrevendo se você não mais existir”.

Ler a carta de Gorz provoca sensações do tipo “quem é essa mulher?”, “ela existe?”, “como encontrar um amor deste?”, perguntas banais e simplórias, talvez como escrever um livro para declarar um sentimento por uma mulher. Gorz enfrentou esse desafio e transformou uma carta de amor num monumento. Para Fernando Pessoa, “todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. Quando Gorz escreve “descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne”, leva às palavras uma lembrança da sensualidade e da sexualidade, expõe a relação mais íntima em exagerada comparação, que pode soar como tal, mas que para Gorz é a mais pura verdade. Pois, para fechar com Pessoa, “só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”.

Acompanhar a doença de Dorine e juntos buscar melhorias, seja no novo eixo de sua obra, seja na cozinha – Gorz aprendeu a cozinhar para oferecer à sua mulher uma alimentação mais saudável –, seja no ambiente onde moravam, uma casa cercada de árvores plantadas pelos dois, em Vosnon (França), esse foi o rumo que o filósofo escolheu. Os motivos estão expostos em “Carta a D.”.
“Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher (…) Eu vigio a sua respiração, minha mão toca você. Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos para sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos.”

Assim Gorz termina a carta, de forma semelhante ao trecho de abertura. O ponto final foi dado em 6 de junho de 2006. Esta declaração de amor encerrou não somente o livro, mas também a trajetória do casal. Em 22 de setembro de 2007, Gorz e Dorine tomaram uma injeção letal e morreram em casa. Juntos.

Este texto foi escrito para “O Tempo” e publicado em 22/3/08. Estava  no blog antigo, mas mesmo assim resolvi postar pois acho que de tempos em tempos é bom lembrar de uma história de amor.

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