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O livro do filme que criou a mulher moderna

Imagine a cena. Marilyn Monroe, com um vestido preto, desce do táxi às 5h, na Quinta Avenida, em Nova York. Paga o motorista e anda poucos metros, até parar em frente a uma vitrine da Tiffany’s. Toma um gole de café e come um croissant. Namora as joias e em seguida caminha pela avenida.

A cena existiu de fato, mas quem estava naquele vestido não era a maior sex symbol de Hollywood. A improvável Audrey Hepburn foi a escolhida para encarnar Holly Goligthly, a personagem central de “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany’s), filme baseado no livro homônimo de Truman Capote.

Marylin era a atriz que Capote queria para interpretar sua Holly, uma mulher que vive por conta própria na Nova York do início dos anos 60. Os produtores e o diretor Blake Edwards optaram pela beleza clássica de Audrey, um perfil mais frágil, com apelo sexual menos óbvio, longe da ingenuidade e da explosão sensual da loira.

O filme se tornou um ícone fashion e um divisor de águas para a mulher moderna. O escritor e jornalista Sam Wasson foi investigar toda a aura que existe sobre a produção, no livro “Quinta Avenida, 5 da Manhã”. Com o subtítulo “Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo e o Surgimento da Mulher Moderna”, Wasson relata como o filme foi concebido, transformou-se na pré-produção e nas filmagens e legou uma nova imagem à mulher. Para Wasson, o filme com Marilyn seria “menos revolucionário”.

Livro e filme caminham por rotas diferentes. Capote, ao flagrar um instantâneo da sociedade nova-iorquina da época, contou a história de uma garota de programa de luxo, que tem um gato sem nome e se encanta por um gay. A censura, que vivia resquícios da caça às bruxas decretada pelo diretor do FBI, J. Edgar Hoover, não permitiria tal enredo, tampouco a sociedade conservadora que vingava nos Estados Unidos pós 2ª Guerra Mundial, prontos como líderes mundiais e em constante conflito com os comunistas.

Os produtores do filme não quiseram correr risco. Pediram que o roteirista George Axlrod transformasse o agridoce e melancólico livro de Capote em uma comédia romântica, com personagens mais palatáveis para aquela sociedade. A contragosto, a solução foi modificar os personagens. “Audrey tem um glamour que preenche muito o conteúdo não dito do filme. E nos repressivos anos 50, uma era de garotas boas fazendo o bem, esse pouco foi um longo caminho”, diz Wasson em entrevista ao blog.

Holly não é mais uma garota de programa, pelo menos não explicitamente. O filme apenas sugere que ela é “ajudada” por milionários. Edwards a transformou numa “kook”, a palavra escolhida pelo estúdio para definir Holly – algo como excêntrica. No edifício de tijolos marrons, ela vai encontrar Paul, um escritor de segunda linha que é mantido por uma socialite.

Wasson detalha todo o desenvolvimento para deixar “Bonequinha” aceitável para os órgãos fiscalizadores da época. Recolhe bastidores para mostrar como os produtores chegaram a Audrey, uma mulher com físico oposto ao imaginado para Holly e atriz que ainda não havia estourado em Hollywood. Ele vai até meados dos anos 50, quando Billy Wilder se preparava para filmar “O Pecado Mora ao Lado” – o filme que consagrou Marilyn e seu esvoaçante vestido branco. A briga para transformar uma peça da Broadway sobre adultério numa comédia de comportamento antecipou o que Edwards iria enfrentar com “Bonequinha”.

BonequinhaMais do que uma comédia romântica, “Bonequinha” fez uma leitura premonitória da mulher moderna. Holly não tem medo da cidade grande, ela que é uma garota do sul, que casou adolescente por conveniência e segurança. Em Nova York, é independente e não dá satisfação a ninguém. Mais do que isso, ela tinha estilo.

Audrey bancou o estilista francês Hubert de Givenchey, então um novato na alta costura, para desenhar os figurinos do filme, contra a vontade da estrela de Hollywood Edith Head, talvez a maior figurinista do cinema, preferida do estúdio.

Graças a ela, o preto básico de Chanel se tornou um ícone nas mãos de Givenchy e no corpo de Audrey. Cabe a ela, em uma cena de abertura memorável, a elevação de um vestido relativamente simples a um grau de elegância padrão, a aposta certa para qualquer ocasião.

Wasson explica essa mudança no comportamento da mulher, como Audrey e sua Holly fizeram emergir uma mulher moderna, antenada, que escolhe suas roupas  e decide viver sem interferências. Não é pouca coisa.

Tinha mais. A música “Moon River” também causou estrago na indústria fonográfica. A composição de Henry Mancini fez com que as trilhas sonoras ganhassem status na produção de filmes e na divulgação. Foi outro ponto de virada para Hollywood.

“Quinta Avenida” é um passeio pela obra. Wasson recolhe trechos do roteiro não utilizados do filme, cartas de Audrey a Givenchy e Mancini, reproduz o convite para a estreia do filme em Nova York, que simula a caligrafia de Holly, traz fotos dos bastidores da produção e das filmagens e até um mapa de Manhattan, com indicação de locações, bares e restaurantes onde Capote e equipe de filmagem se reuniam.

Classificado pela revista “The New Yorker” como um historiador social, Wasson escreveu uma crônica sobre a criação de uma obra. Neste caso, um ícone da moda e do comportamento.

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